A guerra nossa de cada dia!

Data de publicao: 11 Mar 2022


O Brasil e o mundo foram acordados no último dia 24 de fevereiro de 2022 com a notícia bombástica de que a Rússia invadira a Ucrânia – conflito que ainda perdura.
Imediatamente, “especialistas-gerais” dos veículos de comunicação oficiais e das redes sociais começaram a culpar um lado e se solidarizar com o outro – e vice-versa –, criando uma grande discussão nacional e global sobre o reprovável conflito que se desenrolava a dezenas de milhares de quilômetros de distância do Brasil.

Brasil é o nono país mais violento do planeta

Enquanto isso, nada, ou quase nada, foi divulgado nos últimos dias pelas maiores empresas de comunicação do Brasil sobre o relatório da Organização Mundial de Saúde[1], publicado em 17 de fevereiro de 2022, e que aponta o Brasil como o nono país mais violento do planeta – e, as que publicaram, não deram a devida importância.
 
País registrou a morte violenta de 41.069 pessoas, 114 por dia
 
De acordo com o levantamento, a taxa de mortes violentas registradas no Brasil em 2021 é comparável ao volume de mortos produzidos pelas guerras entre países – mais de 33 mortos a cada 100 mil habitantes.

Apesar de o estudo demonstrar que houve uma redução aproximada de 7% do número absoluto de crimes de homicídio (incluindo feminicídio), latrocínio (roubo seguido de morte) e lesões corporais seguidas de morte praticados em solo brasileiro, ainda assim, o país registrou, em números absolutos, a morte violenta de 41.069 pessoas – média de 3.422 crimes por mês, ou 114 ao dia. Nada a comemorar, portanto, quanto a essa redução.
 
Dar à guerra nossa de cada dia a mesma importância da que ocorre longe
 
Embora se admita que o evento guerra atrai naturalmente a atenção das pessoas e provoca um temor generalizado, concentrando, assim, as atenções, é preocupante que os grandes veículos de comunicação nacionais e a internet não tenham promovido uma ampla divulgação de números tão gigantescos da violência que fazem parte do cotidiano de nossas cidades e não tenham provocado um debate nacional sobre suas razões, estratégias de prevenção e de combate.

Naturalização da violência

Ao que parece, a questão da violência está normalizada entre nós, o que, sob diversos aspectos, é um contrassenso. Primeiro, porque nossa apatia diante desse quadro de violência epidêmica expressa a nossa própria negação da humanidade, na medida em que deixamos de valorizar a vida e de buscar alternativas para sua preservação.

Segundo, porque, numa perspectiva econômica, a situação exige aumento dos gastos com saúde, segurança e assistência social, consequência de termos deixado de investir em educação, em moradia, em trabalho e outras formas de melhoria de qualidade de vida do cidadão.

Terceiro, numa visão sociológica, o descaso com o nosso semelhante expressa a nossa incapacidade de rompermos com nossa origem colonial, que nos legou uma sociedade preconceituosa, racista e opressora, e temos de lidar com a realidade de que a maioria esmagadora das vítimas da violência estrutural brasileira está nas camadas sociais mais baixas da sociedade e, majoritariamente, na população negra – cerca de 77%, segundo dados extraídos do Atlas da Violência 2021[2].

Por fim, o mundo está em guerra – o que é injustificável e inadmissível!

Mas, temos uma guerra civil não declarada em nosso próprio quintal e não podemos simplesmente fechar os nossos olhos para isso. É preciso aprofundar o debate sobre as causas da violência estrutural brasileira e dar à guerra nossa de cada dia a mesma, ou ainda maior, importância do que damos à que ocorre em outro continente.

Eduardo Maia é analista do Ministério Público de Minas Gerais, especialista em Ciência Política, diretor no Sindicato dos Servidores do Ministério Público e secretário-geral da Nova Central Sindical de Trabalhadores


A Construção de uma NOVA CENTRAL SINDICAL DE TRABALHADORES – NCST foi forjada na unidade, coragem e ousadia, capaz de propor uma alternativa de luta para os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. A NOVA CENTRAL SINDICAL DE TRABALHADORES marca um momento importante na história do Movimento Sindical Brasileiro, ela é a esperança transformada em realidade que se constitui como instrumento de luta e de unidade da classe trabalhadora do nosso País.

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