O fantasma da desmodernização

Data de publicação: 16 Dez 2021


Superar o atraso sempre foi um árduo desafio nacional. Mas agora, uma avalanche de dissolução arrasta tudo: das instituições de planejamento à Educação, Ciência e centros de pesquisa como o IBGE. Será possível revertê-la, em 2022?

 
Ilustração: Jean Baptiste Debret/Biblioteca Brasiliana


por Marcio Pochmann


Algo profundamente inesperado acontece no Brasil: a desmodernização. Por decisão de sua elite dirigente, um ex-militar busca “implodir pontes” que asseguravam a continuidade do acesso ao futuro nacional, tornando o amanhã cada vez mais uma espécie de volta ao já conhecido passado arcaico.

Da mesma forma, incríveis operações de “queima de caravelas” conduzidas por um astronauta acontecem no âmbito da ciência e tecnologia. Não bastasse isso, a destruição de um dos mais avançados sistemas de saúde pública do mundo avança por força de “especialistas”, seja em logística, seja no tratamento do coração.

A educação não consegue se diferenciar do mesmo percurso, com o desmonte cada vez mais eficaz. Sob o comando de um pastor, o “rebanho educacional” desponta com o retorno aos tempos do livro de Jó. Antes dele, o Ministério da Educação já fora ocupado por economista fundamentalista no mercado financeiro, adestrado no que o ilustre Sérgio Motta definia por “masturbação sociológica”.

Sob a batuta de um dos maiores loroteiros que frequenta a administração pública federal, o governo se dedica à arte de criar uma espécie de instituição paralela na publicação de análises de dados e estatísticas, possível com a fusão do IBGE com o IPEA. No rastro da já vergonhosa manipulação do CAGED, os aprendizes de feiticeiros em Brasília tratam de produzir cenários anabolizados da realidade inexistente, consolidando o que o glorioso Machado de Assis dizia sobre o Brasil oficial em relação ao cada vez mais distante Brasil realmente existente.

Tudo isso parece apenas colocar luz sobre a parte visível do iceberg que se movimenta nos últimos seis anos, cuja escuridão de sua profundeza impossibilita perceber ainda a dimensão da avalanche da dissolução nacional imposta pela desmodernização.

Como se sabe, a modernização jamais foi um processo simples no Brasil. A começar pela criação da América portuguesa, há mais de meio milênio, transcorreu ancorada no seio do sistema colonial mercantil escravista que se apresentava como parte do processo de modernização ocidental. Sob a liderança europeia, a modernidade era identificada por estar assentada em dois pilares: o progresso tecnológico de elevação da base econômica material e a liberdade protagonizada pela busca da emancipação sociopolítica.

Nos seus primeiros 300 anos, o colonialismo lusitano foi suficiente para dizimar as diversas culturas ameríndias através de um amplo genocídio daqueles que até então povoavam a América portuguesa há quase 50 mil anos. Nos 200 anos seguintes, a passagem para o capitalismo interrompeu a escravidão, embora a modernidade esperada pelo progresso tecnológico de elevação da base econômica material somente viesse a ocorrer quatro décadas mais tarde.

Nos conturbados anos da década de 1920 (Revolta de 1922, Revolução de 1924, Coluna Prestes-Costa e Depressão Econômica de 1929), o atraso veio à tona num país profundamente arcaico, de imensa população iletrada e esfomeada que residia no campo, ao lado de uma das maiores plantações de alimentos para a exportação mundial. Pela Revolução de 1930, o propósito da modernização nacional foi colocado em pé, tendo o desenvolvimento como eixo da formação nacional.

Em vez de consumidor, o país passou a ser produtor de bens industriais, conduzido por uma estratégia nacional assentada no planejamento governamental. O sucesso da absorção tecnológica logo transpareceu, moldado por inegável amplitude do progresso econômico material.

Ao mesmo tempo em que o país engrandecia, a resistência das forças do atraso impossibilitava o avanço pleno da modernização em termos da liberdade e emancipação popular. Assim, as reformas civilizatórias do capitalismo contemporâneo eram postergadas, estimulando a formulação das críticas crescentes ao processo de modernização conservadora.

Com a democracia tolhida, o autoritarismo tratou de oferecer uma modernidade incompleta. Não bastasse isso, as forças do atraso se impuseram diante do sucesso do ciclo governamental que buscou aliar, no começo do século XXI, a difusão democrática com a expansão econômica e a inclusão social.

O resultado disso pode ser traduzido pelo nome da desmodernização, que atualmente vagueia pelo país. No seu rastro destrutivo e desagregador, emerge a esperança na aposta de que as eleições podem impedi-la.


* Marcio Pochmann é economista, pesquisador e político brasileiro. Professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi presidente da Fundação Perseu Abramo de 2012 a 2020, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, entre 2007 e 2012, e secretário municipal de São Paulo de 2001 a 2004. Concorreu duas vezes a prefeitura de Campinas-SP (2012 e 2016). Publicou dezenas de livros sobre Economia, sendo agraciado três vezes com o Prêmio Jabuti.



Fonte: Outras Palavras

 



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