Judiciário se move para frear inconsequência de Bolsonaro

Data de publicação: 27 Mar 2020



Cada vez mais isolado no cenário político, o presidente coleciona derrotas no STF em meio à crise do coronavírus




Ministro Alexandre de Moares (Foto Nelson Jr. SCO/STF)



por Rodrigo Martins



Em recente pronunciamento à nação, Jair Bolsonaro voltou a escandalizar o mundo com reincidente postura de minimizar a pandemia de coronavírus, propondo o fim da quarentena. A irresponsável conduta despertou a ira de governadores que haviam determinado medidas de isolamento social. Até mesmo antigos aliados, como Ronaldo Caiado, decidiram romper com o ex-capitão, sempre a ignorar os alertas de especialistas da área da Saúde. A reação não se restringe, porém, à seara científica ou política. No Judiciário, o presidente também coleciona derrotas.

A mais recente ocorreu na tarde desta quinta-feira 26, quando o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, suspendeu os efeitos de uma medida provisória que restringia o acesso a informações públicas enquanto perdurasse o estado de calamidade, decretado em decorrência da pandemia. A ação foi movida pela Ordem dos Advogados do Brasil.

Na avaliação de Felipe Santa Cruz, presidente da entidade, a decisão abre caminho para a divulgação do resultado dos exames de Bolsonaro, para saber se ele contraiu ou não a Covid-19. “É uma informação privada, mas de interesse público”, disse ao jornal O Globo. Vale lembrar que 23 integrantes da caravana de Bolsonaro aos EUA testaram positivo para o novo vírus.

Na terça-feira 24, Bolsonaro havia sofrido outro revés na Corte. O ministro Marco Aurélio Mello estabeleceu, em decisão liminar, que governadores e prefeitos têm autonomia para determinar restrições à locomoção das pessoas em Estados e municípios. A decisão atendeu parcialmente a uma ação movida pelo PDT, a questionar outra medida provisória editada pelo presidente, para quem somente as agências reguladoras federais poderiam editar restrições à locomoção.

A MP visava anular decisões dos governos do Rio de Janeiro, Paraná e Maranhão, que estabeleceram a suspensão do transporte interestadual de passageiros para conter a propagação do novo coronavírus. Da mesma forma, era uma pirracenta resposta de Bolsonaro aos governadores de São Paulo, João Doria (PSDB), e do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), que adotaram medidas de isolamento e quarentena em seus estados.

Em resposta a um pedido liminar protocolado por governadores do Nordeste, Marco Aurélio decidiu suspender os cortes no programa Bolsa Família durante a pandemia do coronavírus. Em março, o Ministério da Cidadania cortou mais de 158 mil benefícios, 61% deles em estados nordestinos.

A decisão também ordena à União que explique a razão de os cortes estarem concentrados na região, governada por partidos de oposição ao presidente. Além disso, segundo recente reportagem de O Estado de S.Paulo, o governo Bolsonaro priorizou o Sul e o Sudeste na liberação de novos benefícios em detrimento do Nordeste, que concentra 36% das famílias em situação de pobreza ou extrema pobreza na fila do Bolsa Família.

No fim de janeiro, CartaCapital divulgou com exclusividade um levantamento encomendado pelo governo de Pernambuco, a indicar a existência de 3,57 milhões de famílias brasileiras pobres ou miseráveis e que estavam fora do programa. A despeito disso, o governo federal insistia que a fila era muito menor, não chegava a 500 mil solicitantes.

Felizmente, o Judiciário resolveu analisar a questão com mais cuidado, e parece empenhado em interditar as ações mais deletérias do ocupante do Palácio do Planalto.


Trabalhadores ao deus-dará


Bolsonaro propôs o fim da quarentena sob o pretexto de preservar a economia e os empregos, mas a realidade é que praticamente todas as ações anunciadas vão na direção de socorrer as empresas, e não de garantir renda para a população. Além do “corona voucher” de 300 reais para os informais (incialmente, o valor era de míseros 200 reais), o presidente chegou a assinar uma medida provisória autorizando os empresários a suspender os contratos de trabalho – e os salários dos empregados – por até quatro meses. Diante da repercussão negativa da desumana proposta, o governo voltou atrás, ao menos em parte. Liberou um corte de 50% nos salários.

“A forma como o governo trata as populações vulneráveis não é muito diferente de como lida com a epidemia em si. Minimiza o problema e faz de conta que não é com ele”, comenta Leda Paulani, professora da Faculdade de Economia e Administração da USP. “Evidentemente, 300 reais é um valor ínfimo para o custo de vida nas grandes cidades, e sequer há um plano claro de como distribuir esses valores, não há protocolo definido”.

Em uma paralisação geral da economia provocada por um fator externo, como é o caso da pandemia de coronavírus, é inevitável haver um esgarçamento das atividades produtivas, com falências e problemas de abastecimento, acrescenta a especialista. “É nessa hora que o Estado precisa ser mais atuante. Se o governo se compromete a pagar parte dos salários, ameniza o impacto social. Trump também minimizava a Covid-19 no início, mas agora anunciou um pacote equivalente a dois PIBs brasileiros. Aqui, o governo oferece uma esmola para os informais e retira a renda dos trabalhadores registrados. Não faz sentido sob qualquer ângulo que quiser analisar”.

Um dia antes de a Organização Mundial da Saúde alertar que os Estados Unidos devem se tornar o novo epicentro da pandemia, após a China e a Europa, o presidente Donald Trump anunciou um investimento de 2 trilhões de dólares para combater o impacto dela na saúde e na economia. É o maior pacote de resgate na histórica norte-americana.

No Reino Unido, o premiê Boris Johnson reconheceu que o Sistema Nacional de Saúde corre sério risco de colapso e determinou, na segunda-feira 23, uma quarentena oficial. Agora, os britânicos só podem sair de casa para atividades essenciais, como comprar alimentos e remédios. Inicialmente agarrado à arriscada estratégia de expor a população ao vírus e proteger apenas os grupos vulneráveis, o primeiro-ministro mudou a postura após um estudo do Imperial College de Londres prever até 500 mil mortes no país, caso não fossem adotadas medidas de restrição à circulação de pessoas. Agora, para preservar os empregos, o governo se dispõe a pagar até 80% dos salários.

Isso mesmo. Enquanto o governo brasileiro pretende liberar os empresários a cortar pela metade o salário de seus funcionários durante a quarentena, o britânico está disposto a bancar 80% dos rendimentos, até o limite mensal de 2,5 mil libras esterlinas por trabalhador, o equivalente a 14,5 mil reais.

No Brasil, com 12 milhões de desempregados e mais de 38,8 milhões de trabalhadores informais, a economista Leda Paulani não descarta a possibilidade de “haver uma convulsão social” com o agravamento da crise. “As pessoas estão ficando sem renda, as prateleiras dos mercados devem esvaziar com a queda das cadeias produtivas, teremos milhões de brasileiros ao deus-dará”, lamenta. “Para piorar, temos um nível de desigualdade brutal, e parcela expressiva da elite tem visão predatória, não se preocupa com o povo”.




Fonte: CartaCapital 

 
A Construção de uma NOVA CENTRAL SINDICAL DE TRABALHADORES – NCST foi forjada na unidade, coragem e ousadia, capaz de propor uma alternativa de luta para os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. A NOVA CENTRAL SINDICAL DE TRABALHADORES marca um momento importante na história do Movimento Sindical Brasileiro, ela é a esperança transformada em realidade que se constitui como instrumento de luta e de unidade da classe trabalhadora do nosso País.

NEWSLETTER
RECEBA NOTÍCIAS POR EMAIL

Receba diariamente todas as notícias publicadas em nosso portal. Após cadastro, confirme sua inscrição clicando no link que chegará em sua caixa de entrada. Confira essa novidade!

Endereço: SAUS Quadra 04 Bloco A Salas 905 a 908 (Ed. Victória) - CEP:70070-938 - Brasília-DF | Telefone: (61) 3226-4000

Back to Top