Brasil atinge 2 milhões de trabalhadores por aplicativos e dados revelam avanço da precarização

Data de publicação: 22 Set 2026


Pesquisa IBGE realizada em cooperação com MPT e Unicamp mostra que plataformizados enfrentam jornadas semanais mais extensas, menor remuneração por hora e baixíssima cobertura da Previdência Social

Fonte: MPT 

O mercado de trabalho brasileiro registrou cerca de 2 milhões de pessoas atuando por meio de aplicativos no decorrer de 2025, contingente que corresponde a 1,9% do total de ocupados no país. O dado integra o módulo temático da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), viabilizada a partir de um convênio de cooperação técnica e científica firmado entre o Ministério Público do Trabalho (MPT), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento traça um panorama detalhado da força laboral inserida nas plataformas digitais e evidencia a precarização do trabalho nessa modalidade, com condições desfavoráveis de renda, jornadas excessivas e desproteção jurídica.

Ao se considerar exclusivamente aqueles que têm nas ferramentas digitais a sua ocupação principal, o volume chega a 1,8 milhão de trabalhadores, registrando uma expansão de 9,1% em apenas um ano e um salto de 36,8% na comparação com o ano de 2022. O segmento de entregadores por aplicativo apresentou o crescimento mais acelerado entre as ocupações pesquisadas, com elevação de 18,6% entre 2024 e 2025. O setor de transporte, armazenagem e correio concentra a maior fatia dessa mão de obra: 75% dos profissionais da área operam por meio de plataformas digitais, o que significa que três em cada quatro trabalhadores dessas atividades dependem de aplicativos para gerar renda.

O perfil predominante é composto pela atuação informal e ampla maioria masculina, representando 84,4% do grupo cuja atividade principal decorre de plataformas. Entre os motoristas e entregadores, a motivação preponderante apontada para a adesão aos aplicativos foi a falta de alternativas no mercado de trabalho convencional, seguida pela busca de flexibilidade de horários.

A pesquisa aponta distorções expressivas nas condições laborais quando confrontadas com o universo dos trabalhadores não vinculados a plataformas no setor privado. Os profissionais de aplicativos cumprem, em média, 5,4 horas a mais de jornada semanal para auferir renda equivalente no final do mês. Essa disparidade se reflete no rendimento médio por hora trabalhada, que ficou em R$ 16,20 para os trabalhadores plataformizados, valor 12% inferior aos R$ 18,40 por hora auferidos pelos trabalhadores formais.

O fosso da vulnerabilidade se torna ainda mais crítico nos indicadores de segurança social. Enquanto a informalidade atinge 42,7% dos trabalhadores não plataformizados, o índice escala para 72,1% entre os que atuam via plataformas digitais, afastando-os de prerrogativas legais como descanso semanal remunerado, férias, 13º salário, dentre outras. Além disso, somente 34% dos profissionais de aplicativos contam com cobertura previdenciária, índice distante dos 63% observados no restante da iniciativa privada. Tal cenário exclui mais de dois terços desse contingente de benefícios essenciais, como auxílio por incapacidade temporária, pensão por morte e aposentadoria.

A procuradora Clarissa Ribeiro Schinestsck, responsável pela cooperação, ressaltou a gravidade do cenário e a importância do diagnóstico empírico para as ações institucionais. “A transformação digital e o uso de novas ferramentas tecnológicas não podem significar a desconstrução dos direitos sociais nem a normalização de jornadas exaustivas sob o manto de uma falsa autonomia. O que o estudo comprova, de modo irrefutável, é a sobrecarga e o desamparo previdenciário enfrentados diariamente por esses trabalhadores. O convênio mantido entre o MPT, a Unicamp e o IBGE é fundamental para fornecer elementos fáticos e sólidos à sociedade e aos órgãos públicos, orientando a atuação institucional e a indispensável regulação que respeite a dignidade do trabalhador”.

Para o pesquisador José Dari Krein (CESIT/UNICAMP), a pesquisa reafirma a precariedade do trabalho por plataformas, com piora nos indicadores de proteção previdenciária, rendimento por hora e jornada em relação a 2024. “As plataformas combinam baixa proteção social, jornadas extensas e menores rendimentos por hora, mantendo o controle sobre preços, clientes e organização da atividade. A tecnologia não elimina a subordinação: modifica seus instrumentos, enquanto transfere custos e riscos aos trabalhadores”, afirma Krein.


 
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