Sávio Borges   Os desdobramentos das leis contribuem para o aumento de sinistros envolvendo caminhões, ônibus, motos e outros veículos automotores. As medidas político-práticas adotadas apontam para a retirada de direitos de motoristas e trocadores e a conivência com a carnificina das estradas e das ruas." /> Sávio Borges   Os desdobramentos das leis contribuem para o aumento de sinistros envolvendo caminhões, ônibus, motos e outros veículos automotores. As medidas político-práticas adotadas apontam para a retirada de direitos de motoristas e trocadores e a conivência com a carnificina das estradas e das ruas.">

Aprender com Saly

Data de publicação: 16 Jan 2013

“E no meu caminho, o tempo é cada vez menor...

Preciso de ajuda! Por favor me acuda!

Eu vivo muito só...”

Roberto Carlos,

As Curvas da Estrada de Santos


Em Assembleia Geral, a Organização das Nações Unidas estabeleceu como “Década de Ação para a Segurança Viária” o período que vai de 2011 a 2020. Por ano, no mundo, hoje morrem um milhão e trezentos mil pessoas e o Brasil é responsável por mais de 4,5% deste número. O objetivo é reduzir as mortes no trânsito em cinquenta por cento.

Em 2010, as companhias de seguros indenizaram 51 mil sinistros de morte e 152 mil sinistros de invalidez permanente, que passaram, respectivamente, a 58 e 240 mil, em 2011. Minas Gerais é responsável por 10,6% do número de mortes ocorridas no País. No Estado, em 2011, foram registrados 51.911 ocorrências em estradas – entre atropelamentos e colisões. Nas áreas urbanas a situação não é diferente. Só em Belo Horizonte foram registradas 82.329 ocorrências – uma a cada seis minutos.

No dia três de outubro do ano passado, quando a noite caia nas terras do Rio Bom, Paracatú, um veículo novo e em boas condições, com airbag, foi abarroado por outro que derrapava. Na colisão foram envolvidos cinco veículos.

Uma das vítimas, de nome Saly, que viajava a trabalho, no banco de trás e usava cinto de segurança, não resistiu aos ferimentos e perdeu a vida a caminho de um hospital. Nos muitos que a queriam e admiravam ficou a dor e uma memória ardente. O sorriso, o desprendimento e sua dedicação ao próximo agora povoam os sonhos bons e ruins.

A filha, adolescente há pouco, permanece distante e seus olhos, sem faíscas, buscam uma luz que possa iluminar o pesadelo. A alegria octogenária da mãe, apenas entrecortada pelos sobressaltos típicos de uma vida intensa, hoje mora longe e não acorda mais com ela – para vivê-la exige estímulos permanentes. Seu marido, se antes inseguro, vive o degredo dos sem-lugar. Na mesa de domingo, os irmãos, parentes e amigos velam uma cadeira fantasma.

Não há o que dizer a ninguém, pelo menos que se saiba. Também não há o que falar do silêncio. Não há que se exigir conformidade na morada da perda e da indignação.

No caso citado, ao que tudo indica, o acontecido não passou de uma fatalidade, de um verdadeiro acidente. Contudo, a imensa maioria das ocorrências nas estradas e cidades pode ser evitada – portanto, não merece ser taxada de mero acidente.

Cabe às pessoas, assumirem as suas responsabilidades e se mobilizarem para dar um basta neste genocídio, aos governantes agir de modo a reduzir as situações de risco e ao estado garantir a segurança e punir os infratores.

 Parecia ser este o sentido do Pacto Nacional pela Redução de Acidentes, lembrado por importantes dirigentes políticos, a exemplo da Presidente Dilma, quando da Semana Nacional do Trânsito deste ano, comemorada, se há o que comemorar, de dezoito a vinte e cinco de setembro.

Mas para desespero de todos, as três esferas de governo – federal, estadual e municipal – vem optando por um caminho oposto. Apesar dos discursos consternados a cada nova tragédia; as medidas político-práticas adotadas apontam para a conivência com a carnificina das estradas e das ruas. Senão vejamos:

      Depois de 25 anos de luta e espera, no mês de abril, a Presidência da República sancionou a Lei 12.619 que dispõe sobre o exercício da profissão de motorista. O projeto originário, aprovado integralmente pelo Parlamento, é fruto do diálogo entre as representações dos empresários e dos trabalhadores – mas, mesmo assim, recebeu vetos importantes do Executivo.

A nova lei garantiu direitos elementares aos trabalhadores e pretendeu proteger a sociedade de abusos. Assegurou, por exemplo, aos motoristas que transportam cargas e passageiros pelas estradas uma jornada de trabalho máxima e períodos mínimos de descanso e repouso. Um dos principais objetivos e efeitos da lei é a diminuição dos acidentes causados por profissionais exaustos.

Todavia, cedendo às pressões e ao locaute iniciado por parte do empresariado – ligada à distribuição de combustíveis, ao agronegócio e a cooperativas –, menos de cinco meses após a sanção; o Governo Federal – através de resolução do CONTRAN – adiou a aplicação da lei e suspendeu a fiscalização da jornada de trabalho máxima nas viagens de longa distância nas rodovias brasileiras.

A esperança das estradas serem ocupadas por motoristas em condições físicas e psicológicas mais apropriadas capotou antes da primeira curva.

      Um dos pontos que ajudam na melhoria das condições dos veículos que trafegam são as vistorias, os licenciamentos e as fiscalizações. De acordo com o Detran-MG – 22,7% dos 7,4 milhões de veículos registrados no Estado de Minas não tem licenciamento. Só um Belo Horizonte mais de um quinto da frota circula sem ter a devida licença.

Como se sabe, em qualquer tipo de automotor, quanto mais velho maior o risco de falhas. Na elaboração de qualquer índice de deterioração, a idade é o principal quesito. Todos os pareceres técnicos do Departamento de Estradas de Rodagem apontam neste sentido. Para João Afonso Baeta, Diretor de Fiscalização do DER-MG, “a idade máxima admissível é de quinze anos, qualquer adoção a partir desta idade, de certa forma, vai contra a segurança.”

 Segundo o DER existem, hoje, oito mil veículos regulares com idade média de 4,8 anos. Quinze mil de fretamento com idade média de seis e sete anos e outros vinte mil com idade entre dezesseis e dezessete anos – ou seja, quase a metade da frota tem idade acima da indicada. Não por acaso, são frequentes ocorrências envolvendo ônibus fretados e clandestinos com mais de quinze anos de fabricação.

Os decretos estaduais 44.035, de 2005, e 45.521, de 2010, previam a retirada de circulação, em janeiro de 2013, de todo “veículo automotor de transporte coletivo de passageiros” que prestasse serviço por meio de aluguel e tivesse mais que o limite de segurança – quinze anos anos de fabricação.

No entanto, o Governo Anastasia revogou os decretos e permitiu a circulação de veículos com até dezoito no transporte intermunicipal. Não satisfeito, ao saber da notícia, Nivaldo Soares Júnior, presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Turismo e Fretamento da Região Metropolitana de BH – Sindeturf,  informou que vai “brigar pela extensão dos limites”. O Sindicato foi o responsável por manifestação na Cidade Administrativa , diga-se de passagem permitida, que contou com a presença de 160 donos de ônibus, no último mês de agosto.

Desta vez, a esperança de que nossas estradas fossem ocupadas por veículos em condições de uso rolaram barranco abaixo.

      A adoção de novas tecnologias, como as catracas eletrônicas, ou novos sistemas de transporte, tem servido de desculpas para a retirada de direito dos trabalhadores e aumentar a exploração sobre o trabalho. E, de tabela, colocam a população em situação de mais risco. É o que se assiste na eliminação das funções de cobradores e agentes de bordos em ônibus urbanos e interurbanos.

Em Belo Horizonte, a Emenda substitutiva nº 1 do Projeto de Lei 2.444, sancionada, recentemente, pelo Prefeito, retira os cobradores dos ônibus noturnos e daqueles que circulam aos domingos e feriados. O sentido geral, a longo prazo, é acabar definitivamente com a figura do cobrador, como já ocorreu em outras cidades.

Não é nada fácil garantir a vida e o bem estar de dezenas de pessoas mantendo atenção num trânsito cada vez mais caótico e violento, promovendo o embarque e o desembarque, enfrentando pistas de rolamentos e sinalizações precárias e veículos que nem sempre estão em melhores condições de uso – tudo isto respeitando um quadro de horário desumano. É preciso lembrar ainda os altos índices de poluição, ruído, temperatura, vibrações e movimentos repetitivos e as altas cargas de trabalho com pouco tempo de descanso.

 Com as novas atribuições de cobrança e atendimento aos passageiros, as condições de exercício da profissão de motorista mudam para pior. Os profissionais tem uma sobrecarga de trabalho, veem aumentadas as responsabilidades, sentem o aprofundamento das condições de stress, sabem do comprometimento de sua atenção no trânsito e percebem a elevação o patamar de risco.

Aqui, os interesses econômicos dos empresários do transporte bate de frente com os motoristas e passageiros.

 É notável como os desdobramentos das leis contribuem para o aumento de sinistros envolvendo caminhões, ônibus, motos e outros veículos automotores. O descaso dos governos com a população, deixa claro que as vítimas do trânsito não podem mais ser depositados, exclusivamente, no colo de motoristas irresponsáveis, pouco preparados ou inexperientes.

A realidade é que o fenômeno “acidente” vem abandonando a condição de acontecimento casual, fortuito ou inesperado. Está passando a transitar no âmbito da antevisão, da percepção da antecedência e caminham, a passos largos, para habitar o reino dos fatos planejados ou deliberadamente executados. O que fazer?

Um caminho é usar o exemplo de minha irmã, Saly Terezinha, e de sua vida dedicada às pessoas, para exigir dos governantes o fim de suas próprias irresponsabilidades e que passem a responder pelas atrocidades que vem patrocinando.

 Belo Horizonte, janeiro de 2013

Sávio Bones – [email protected]

A Construção de uma NOVA CENTRAL SINDICAL DE TRABALHADORES – NCST foi forjada na unidade, coragem e ousadia, capaz de propor uma alternativa de luta para os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. A NOVA CENTRAL SINDICAL DE TRABALHADORES marca um momento importante na história do Movimento Sindical Brasileiro, ela é a esperança transformada em realidade que se constitui como instrumento de luta e de unidade da classe trabalhadora do nosso País.

NEWSLETTER
RECEBA NOTÍCIAS POR EMAIL

Receba diariamente todas as notícias publicadas em nosso portal. Após cadastro, confirme sua inscrição clicando no link que chegará em sua caixa de entrada. Confira essa novidade!

Endereço: SAUS Quadra 04 Bloco A Salas 905 a 908 (Ed. Victória) - CEP:70070-938 - Brasília-DF | Telefone: (61) 3226-4000

Back to Top