RODOVIÁRIOS EM PAUTA CAMINHO DO CAOS

Data de publicação: 27 Abr 2011



Motoristas reclamam de total falta de estrutura para descarregar safra no porto de Paranaguá
 
Os motoristas que descarregam no Porto de Paranaguá na época da safra de grãos enfrentam muitas dificuldades para cumprir com seu trabalho. Após viajar por 12, 18 horas, muitas vezes sem descanso, em geral com carregamentos do noroeste do estado ou do Mato Grosso, ao chegar na BR 277 encontram uma fila que pode durar de 12 horas a dois dias.

Vindo de Cambé, o motorista João (nome fictício, pois ele não quis se identificar) trabalha para uma transportadora e chegou revoltado na fila "a gente só ganha estadia no momento que entra no pátio, aí fica aqui dois, três dias na fila sem ganhar nada e eles ainda usam o caminhão de celeiro". Sobre a estrutura na estrada ele diz que "é razoável, para não dizer lamentável, por exemplo, isso aqui no chão é soja; amanhã faz sol e fica um cheiro horrível, no Porto então é ainda pior".

O motorista Firmino Machado trabalha para uma transportadora em Ponta Grossa e viaja com a família. "Trouxemos bastante coisa para comer e galões de água, porque não temos ideia se vamos descarregar amanhã ou depois de amanhã", diz. Com sua mulher, sobrinha e uma criança de três anos, Firmino e os filhos passaram fevereiro na lavoura no Mato Grosso "mas lá a gente não tinha como levar elas, porque na lavoura não tem banheiro, não tem nada", conta.

Motoristas sofrem para descarregar a safra em Paranaguá

Vinte e quatro horas é o tempo médio de espera dos motoristas que tentam descarregar mercadorias no Porto de Paranaguá nesta última semana, em função da época de Safra nas lavouras de soja e grãos. A fila se estende por trinta quilômetros ao longo da rodovia, com início na cidade de Morretes.

A realidade da estrada é de completa falta de condições, sem banheiros ou possibilidade de descanso. O motorista Lindolfo José Back está há trinta anos na estrada e já descarregou a safra em outras vezes. “Se alguém aqui na rodovia passa mal não tem ninguém que possa socorrer, no máximo passa a polícia rodoviária uma vez ou outra”, ele alerta.

Esta situação precária muitas vezes é enfrentada não só pelos motoristas, mas pelas suas famílias. É o caso de Firmino Machado, que viaja em três caminhões da mesma firma com sua esposa, filho, filha, sobrinho e a filha do sobrinho, de três anos. Ele brinca que “o jeito é fazer comida para descansar”. Também experiente nas safras, certo ano Firmino chegou a esperar dois dias na fila e voltar com o caminhão ainda cheio, sem terminar a viagem. Mas ele conta que ainda tem um pouco de sorte “ao contrário da maioria das firmas, a nossa não gosta que ande de noite; mas na maioria dos casos eles não deixam parar, querem que rode direto noite e dia”.
Entrar no pátio do Porto é muitas vezes um alívio, pois a maioria das empresas só paga a diária (de R$ 0,20 a R$ 0,40 por tonelada, por hora) a partir do momento em que o caminhão registra a entrada no pátio, portanto a espera na BR não é remunerada.

Perigo na estrada

São vários os riscos de quem trabalha por 12, 24 ou 36 horas sem descanso. Parados na estrada, os motoristas ainda precisam enfrentar o medo de serem assaltados, não só seu dinheiro, mas também suas cargas.

A cinco quilômetros da chegada ao porto, Jalmir Pagno teve sua carga derrubada e roubada por quatro garotos. “Eles vem aqui, derrubam sua carga e colocam num saco para levar vender lá, se você fala alguma coisa eles te matam”. Sua sorte foi a carga ter obstruído a passagem de carros, o que obrigou a vinda da polícia rodoviária para controlar a situação e então os ladrões se retiraram.

O prejuízo para o motorista é alto. Para reaver a mercadoria ao caminhão é preciso tirar do bolso dinheiro e pagar ajudantes para o trabalho. Por vezes o custo é coberto pelo seguro da empresa, porém o valor pago pode ser inferior à perda da mercadoria. Os motoristas ainda correm o risco de ser multados pela polícia por “sujar a via pública” com a carga perdida.

SINTRACARP distribui 7,5 mil litros de água a motoristas na fila da BR 277
 
Ação sindical de solidariedade além de levar água aos trabalhadores, levou informação sobre a campanha salarial 2011 e informações sobre os direitos trabalhistas dos motoristas

Diretores do Sindicato dos Trabalhadores Motoristas e Ajudantes em Empresas de Transportes de Cargas do Estado do Paraná (Sintracarp) distribuíram 7,5 mil litros de água mineral aos motoristas que estão presos nas filas pra descer pro porto de Paranaguá na BR 277 e aos motoristas que estavam nas filas da ligação do contorno sul (que faz ligação entre as BRs 277, 376 e 116). A água foi custeada pelo Sintracarp e pela Federação dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do Estado do Paraná (Fetropar).

Como a situação era mais crítica na BR 277 sentido Paranaguá, onde diversas pontes foram destruídas, os dirigentes direcionaram maior quantidade de galões de água para esta região, entregando por toda extensão da rodovia até o pátio de triagem do porto de Paranaguá. Durante a manhã a fila iniciava-se na altura da Renault, em São José dos Pinhais.

Além da água, os dirigentes entregaram boletim informativo da Fetropar contendo a pauta de reivindicações da campanha salarial unificada 2011 dos trabalhadores do setor do transporte de cargas do Paraná e informações relevantes sobre direitos trabalhistas e prevenções de saúde.

Audiência no MPT discute soluções para as filas de caminhões rumo ao porto de Paranaguá

Convocada pelo procurador Gláucio Araújo de Oliveira, a audiência contou com a participação da Fetropar (motoristas empregados), Sindicam-PR (motoristas autônomos), Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Polícia Rodoviária Federal, Ecovia, Associação Brasileira das Concessionárias de Rodovias (ABCR) e Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (Appa).

O intuito da convocação foi promover um debate que resulte num pacto de ajuste entre as partes em busca de solução para o problema que tem exposto os trabalhadores motoristas e suas famílias a situações degradantes durante os longos períodos de espera na fila em que ficam sem banheiro, sem alimentação, sem água, sem segurança, entre outros problemas.

Os motoristas empregados estiveram representados pelo presidente da Fetropar, Epitácio Antonio dos Santos e pelo secretário de Finanças da Fetropar e diretor do Sintracarp, Evaldo Baron. A Federação entregou aos presentes um relatório contendo os principais problemas enfrentados pelos motoristas durante a espera em março. “Em termos de estrutura falta tudo na estrada. Até mesmo o mais simples que seria informar corretamente o motorista na passagem dele pelas cabines de pedágio não é feito”, diz Epitácio.

Para o inspetor Antonio Paim da PRF, o cadastro das cargas na fonte via programa “Carga Online” da Appa não tem funcionado corretamente pelo fato de alguns produtores deixarem pra cadastrar a carga quando a mesma encontra-se a caminho do porto. “O ideal seria trabalharmos com dois momentos: um de cadastro e outro de liberação durante o trajeto”. Em sua fala, o Chefe de Operações da PRF no Paraná, Gilson Cortian, foi enfático: “não vamos mais tolerar filas no acostamento nos próximos anos”.

Os representantes da PRF e da Fetropar levantaram a importância da construção de um pátio de espera em Curitiba ou Região Metropolitana, de forma que os caminhoneiros possam esperar em local seguro até terem a certeza de que vão poder descer e descarregar no porto.

Os representantes da Appa trouxeram diversas informações sobre o pátio de triagem e o escoamento da safra. De acordo com eles, a capacidade atual do pátio é de 980 caminhões, podendo chegar a 1200. Por dia, em condições normais de clima, a Appa tem capacidade para carregar 100 mil toneladas de grãos (vindos via transporte rodoviário e ferroviário). Para o Chefe do Setor de Operações Portuárias da Appa, a construção de um pátio de espera para os caminhoneiros em Curitiba e silos de armazenamento dos grãos em Paranaguá poderiam acabar facilmente com as filas. “Hoje as embarcadoras usam os caminhões como armazéns. É mais barato. Se eles fossem obrigados a deixar num silo intermediário, acabaríamos com as filas”, disse.

O representante da ABCR questionou a ausência dos representantes das embarcadoras na reunião. “Os principais culpados dessas filas não estão aqui: as embarcadoras”, disse.

O vice-presidente do Sindicam-PR, Laertes José de Freitas, reiterou os problemas dos caminhoneiros nas filas e no pátio de triagem e também questionou a culpa das embarcadoras. “A Appa não pode punir as embarcadoras que mandam carga sem senha?”, diz. “Se as embarcadoras reincidentes forem punidas pela Appa, PRF ou MPT, com certeza as práticas ruins diminuirão muito”, sugere o assessor jurídico da Fetropar, André Passos.

Após registrar todos os posicionamentos, uma ata oficializou todas as sugestões das entidades presentes para solucionar o problema. Uma nova reunião deverá ser convocada em maio com a presença dos representantes das embarcadoras, das transportadoras e da Secretaria de Estado dos Transportes.

Fonte: FETROPAR
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