Nível da pandemia no Brasil nunca deixou de ser elevado, adverte sanitarista

Data de publicação: 20 Nov 2020


Pesquisadora da Fiocruz destaca alta na média diária de mortes no Centro-Oeste, Sudeste e Sul. E alerta que aceleração já está repercutindo nas unidades hospitalares

 
Incremento atual da primeira onda da pandemia pode ser muito pior em termos de lotação dos hospitais


por Clara Assunção
edição de Helder Lima



A alta no nível da pandemia no país, com aceleração de novos casos e mortes pela covid-19, está repercutindo na ocupação de unidades hospitalares. O alerta é da médica sanitarista, presidenta do Centro Brasileiro de Estudos da Saúde (Cebes), Lúcia Souto, que é também pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Em entrevista a Glauco Faria, do Jornal Brasil Atual, a sanitarista observa com preocupação a aceleração da pandemia nas regiões do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país. 

Dados das secretarias estaduais apontam para uma tendência de alta de 63% na média diária de mortes no Centro-Oeste. Enquanto que na região Sudeste há 77% de elevação. Uma alta que segue também no Sul, com 53%. Nesse momento, de acordo com Lúcia, o país faz uma “manutenção da primeira onda” de casos do novo coronavírus. 

Apesar da queda até 14 dias atrás, os números diários de casos e mortes foram reduzidos, mas ainda dentro de um nível muito alto. “Os níveis, os patamares da pandemia no Brasil, nunca deixaram de ser muito elevados”, explica. O fato, destaca a presidenta do Cebes, é que a curva da pandemia voltou a crescer ainda mais. Nesta quarta (19), quando o país registrou 167.455 vidas perdidas, a taxa de ocupação de leitos públicos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) já era superior a 80% na cidade do Rio de Janeiro. 


Sem hospitais de campanha


Reportagem da RBA mostrou que de todos os leitos destinados à covid-19 na capital fluminense, 90% deles estão ocupados. Já o município de São Paulo tem mais de 400 pessoas em UTI com a infecção. O maior número em 30 dias. 

No início da pandemia, em março, diversos estados construíram hospitais de campanha para suprir a necessidade de leitos. Mas, poucos mais de cinco meses depois, a estrutura já era desmontada. O que agora preocupa a pesquisadora da Fiocruz. Segundo Lúcia, à época, diversas entidades de saúde coletiva alertaram que era preciso aplicar os recursos nos hospitais públicos já existentes. Sem esses investimentos e, atualmente, sem os hospitais de campanha, o incremento atual da primeira onda da pandemia pode ser muito pior em termos de lotação das UTIs e dos hospitais públicos e privados.

“É uma situação que precisamos resolver com urgência. A pandemia precisa ser controlada no Brasil, é preciso dar robustez ao sistema público, financiá-lo à altura dos desafios que estão colocados. Isso significa que não é possível aceitar o desfinanciamento proposto pela Lei de Diretrizes Orçamentárias que o governo Bolsonaro encaminhou ao Congresso e que retira quase R$ 40 bilhões do SUS para 2021. Isso é inaceitável”, contesta a presidenta do Cebes. 


Isolamento social 


Além disso, a sanitarista acrescenta sua preocupação com a medidas de prevenção, como o uso de máscara, distanciamento social, que parte da população vem deixando de adotar. “O Brasil precisa se unir para combater o vírus. Mas no lugar disso a gente está vendo a provocação da desunião do país e de um estado de confusão que ninguém sabe o que fazer”, afirma, em referência à postura do presidente Jair Bolsonaro. 

Na quarta-feira (18), o Ministério da Saúde fez uma publicação no Twitter defendendo o isolamento social, mas logo depois apagou a postagem. O texto ainda reconhecia a inexistência de remédios de prevenção ou combate à covid-19, contrariando os reiterados discursos de Bolsonaro. “É grave, a situação merece muita atenção de todos nós”, adverte a sanitarista. 


Confira a entrevista:








Fonte: Rede Brasil Atual - RBA