Pandemia desmascara modelos de negócio da educação privada

Data de publicação: 4 Ago 2020



“Há escolas que estão mostrando que são só atividades de negócios, nada a ver com educação. É a mercantilização do ensino”, aponta dirigente da Federação dos Professores de São Paulo (Fepesp)


 
Instituições de ensino superior privado sucatearam seu ensino, realizando centenas de demissões



por Felipe Mascari
edição de Glauco Faria




Carreatas de escolas particulares por volta às aulas e demissões em massa nas universidades privadas. Essas ações, em meio à pandemia do novo coronavírus, mostram que parte das instituições de ensino não tem compromisso com a educação, apenas com seu próprio modelo de negócio. A avaliação é do presidente da Federação dos Professores de São Paulo (Fepesp), Celso Napolitano.

“Nessa pandemia, algumas questões estão aflorando. Há escolas que estão mostrando que são só atividades de negócios, nada a ver com educação. É a mercantilização do ensino”, afirmou Celso, em entrevista à jornalista Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual.

Na sexta-feira (31), um grupo de 70 donos de escolas infantis e creches particulares de São Paulo e do ABC paulista fizeram uma manifestação reivindicando o retorno às aulas.


Volta às aulas


A volta às aulas presenciais na educação básica da cidade de São Paulo, proposta pelo prefeito Bruno Covas (PSDB), está em debate na Câmara Municipal. A ideia da prefeitura é retomar as atividades em setembro.

Professores, no entanto, são contrários à medida prevista no Projeto de Lei (PL) 452/20. De acordo com Celso Napolitano, a prefeitura e o governo estadual programam a volta sem ouvir profissionais da educação. “É preciso levar em conta a saúde das famílias e dos educadores. Todas as pessoas têm importância no sistema da escola, desde o porteiro até o perueiro. As pesquisas mostram que há uma insegurança total”, alertou.

No dia 21 de julho, a Fepesp entrou com representação no Ministério Público do Trabalho (MPT) para pedir intermediação na convocação das representações patronais na educação básica e no ensino superior (Sieeesp e Semesp, respectivamente) com o objetivo de se elaborar um protocolo de retorno às aulas presenciais, respeitando às condições de trabalho das categorias dos professores e auxiliares de administração escolar.


Demissões em massa


Durante a entrevista, o presidente da federação lembra que as instituições de ensino superior privado realizaram centenas de demissões. Um dos casos ocorreu na Universidade Nove de Julho, a Uninove, que dispensou seus professores por meio de uma plataforma on-line.

“Estão demonstrando que a única coisa que interessa é o negócio, principalmente a educação a distância. Nós notamos que estão tratando como uma empresa qualquer, sem se preocupar com os alunos. A Uninove demitiu 680 docentes, por exemplo. Não tem como trabalhar o segundo semestre assim, ou seja, a faculdade vai colocar mais alunos em salas virtuais”, relata Celso.

Pesquisa do Instituto Península, realizada em maio deste ano, mostra que 83% dos professores brasileiros, em média, ainda se sentiam nada ou pouco preparados para o ensino remoto, durante o isolamento social.

O levantamento mostra que 88% dos docentes entrevistados nunca tinham dado aula de forma virtual antes da pandemia. Mesmo com esse cenário inédito, a Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul) também demitiu seus profissionais.

“A Universidade Cruzeiro do Sul declarou, numa audiência na Justiça do Trabalho, que os professores foram substituídos porque não se adaptaram à atividade remota. Imagina ter docentes com 20 anos de sala, mas obrigados a se adaptaram em três meses. Na verdade, isso é uma substituição de salários altos por salários baixos”, acrescentou Celso Napolitano.




Fonte: Rede Brasil Atual - RBA 

 


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