Mulheres pobres encaram vácuo de informação para tratar câncer no SUS

Data de publicação: 6 Nov 2019



Fazer campanhas educativas é o suficiente? Pesquisa mostra maior demora para iniciar tratamento de câncer de mama em mulheres marginalizadas




Mulheres fazem passeata pela conscientização do câncer de mama no Rio de Janeiro, em 2017. (Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil)



por Giovanna Galvani



Cenário hipotético: uma mulher branca e com alto nível de escolaridade entra em um hospital público com o diagnóstico de câncer de mama nas mãos. Ao lado dela, uma mulher negra e de baixo acesso a educação apresenta seu laudo médico. Ambas estão com o câncer no mesmo estadiamento e terão tratamento custeado pelo Estado. No entanto, uma irá começar o tratamento antes da outra. Dá para imaginar quem?

A cena é imaginária, mas foi constatada em uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sobre os impactos da desigualdade social no tratamento do câncer de mama – que teve em outubro sua campanha mais incisiva de prevenção, mas atinge de diferentes maneiras as mulheres diagnosticadas com a doença.

A preocupação em estimular mulheres a fazerem exames preventivos parece passar longe da realidade que a maioria encontra nos horários dos postos de saúde e no fornecimento de exames de rotina – o que faz com que o câncer de colo de útero, o quarto maior em letalidade para elas, passe despercebido.

“A gente percebe que, independente do estadiamento do câncer – não importa se é em fase inicial ou avançada -, as mulheres dos perfis associados às características de maior vulnerabilidade social, como baixa escolaridade, renda, e não brancas, sempre estarão em desvantagem em relação ao tempo para começar o tratamento contra o câncer”, explica Ana Lucia Cabral, doutora em Saúde Pública pela UFMG e responsável pela pesquisa sobre o câncer de mama e desigualdade na cidade de Belo Horizonte, que foi publicada em 2017. A lógica dos padrões, no entanto, não mudou de lá para cá.

O médico Gustavo Maximiliano, que atua no Hospital Pérola Byington, explica que o câncer de mama é o mais prevalente nas mulheres depois do câncer de pele não-melanoma, que não é tão grave quanto o primeiro. Atualmente, mais de 70% dos casos que envolvem tumores malignos nas mamas já estão em fase avançada e de metástase, de acordo com o Estudo Amazona, que reúne 19 instituições de pesquisa na área.

“Além dos problemas estruturais do problema de saúde e da questão das mulheres falharem em não buscar ajuda mais cedo, ele é um câncer de difícil diagnóstico em mulheres mais jovens e em mulheres de 40 e 50 anos”, diz Maximiliano.

A dificuldade de identificação não se aplica, no entanto, ao câncer de colo de útero, que vitimou mais de 6300 mulheres em 2017. Nesse caso, o médico é enfático: “O câncer de colo de útero é um marcador de pobreza. Ele é muito mais prevenível e sua grande prevalência está relacionada às pacientes que têm dificuldade em fazer o exame de papanicolau ou porque não vão, ou porque não tem oferta de serviço”, diz.

Nesse caso, há um sério problema de identificação do perigo por parte das mulheres. Segundo pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) a pedido da Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia, entre as 700 mulheres entrevistadas, 66% não associavam o vírus HPV (papilomavírus humano) ao risco do câncer de colo de útero. O vírus está presente em quase todos os casos confirmados desse tipo de câncer.


E as campanhas?


Ana Lucia Cabral comenta que, apesar dos resultados de sua pesquisa, não existe solução fácil para sanar o problema, e sim indícios do que pode ter trazido a situação ao ponto atual.

Em um outro levantamento feito com 30 mulheres já em tratamento do câncer, a pesquisadora apontou dificuldades na relação com médicos e profissionais de saúde como um dos fatores que fazem com que as pacientes não se sintam ouvidas, o que influencia em esclarecer dúvidas sobre a doença e o tratamento.

“A análise das narrativas forneceu pistas ao evidenciar situações, em todos os níveis de atenção, que velada ou abertamente resultaram em prejuízos da atenção às mulheres de maior vulnerabilidade e que podem ser compreendidas como atos discriminatórios como, por exemplo, negligência e formas desrespeitosas de se dirigir às pacientes em atendimentos médicos e de outros profissionais de saúde”, diz o levantamento.

Apesar das recorrentes e importantes campanhas de conscientização do auto-exame e toda a temática do Outubro Rosa, a pesquisadora vê como necessário “considerar as diferenças que existem entre as mulheres”. Aquelas que trabalham em horários comerciais e que não têm flexibilidade para realizar consultas preventivas em centros de saúde – que funcionam, geralmente, das 8h às 17h – são prejudicadas.

Além disso, há ainda os afazeres domésticos após o expediente, que caracteriza a dupla jornada de trabalho da maioria das mulheres pobres, e que representa mais um obstáculo ao comportamento de cuidado em saúde.

“A mulher que está inserida no trabalho informal, por exemplo, vai acordar às 5h da manhã e só vai desconfiar que algo está errado quando perceber no corpo algum sinal, como um nódulo ou secreção. Quando o câncer de mama apresenta algum sintoma,  pode ser que já esteja num estágio mais avançado“, analisa.

No caso do câncer de colo de útero, não há sequer campanha específica recente para divulgar sobre a importância da prevenção nesse caso. Existe somente a divulgação da vacina contra o HPV, mas o foco dado é para a vacinação, e não para o acompanhamento com exames específicos e preventivos.

Para Ana Lucia Cabral, é necessário repensar a maneira como um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo atende às mulheres negras, pobres e periféricas do País. O tratamento diferencial deve ser exclusivamente para fins de acesso à informação, e não por motivações de cunho preconceituoso.

“Nós temos uma estrutura social discriminatória que tem reflexos na formação dos profissionais de saúde e no cotidiano da assistência à saúde. Isso deve ser objeto de preocupação dos gestores e das instituições formadoras. As campanhas educativas devem ter esse cuidado de não tratar as mulheres da mesma forma, mas sim desenvolver uma linguagem apropriada de acordo com o universo de vida delas”, diz.




Fonte: CartaCapital

 


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