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Centrais sindicais denunciam tarifaço abusivo dos EUA em reunião na OMC

19 Set 2025

 

A Nova Central Sindical dos Trabalhadores (NCST), representada por Artur Bueno Júnior e Renaldim Barboza Pereira, participou nesta quinta-feira (18) de uma reunião na sede da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra, para a entrega de um documento conjunto das centrais sindicais brasileiras. O texto condena o tarifaço abusivo imposto pelo governo Donald Trump, ressalta os impactos diretos sobre a classe trabalhadora e solicita uma atuação firme da entidade internacional diante do caso.

O encontro contou com a presença da diretora-geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala, além de dirigentes da Força Sindical, da CUT e do embaixador Guilherme Patriota, representante do Brasil junto à organização.

Defesa da soberania e dos empregos

Durante a reunião, Artur Bueno, secretário nacional do Plano dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação da NCST e vice-presidente da CNTA, criticou a sobretaxa imposta pelos Estados Unidos ao Brasil.

“Essa medida não se sustenta sob nenhuma justificativa econômica. Trata-se claramente de uma disputa geopolítica — uma arena na qual não pretendemos ingressar. Se fosse uma questão estritamente econômica, estaríamos dispostos a negociar e buscar soluções. Mas não podemos admitir que soberania nacional e geopolítica sejam utilizadas como justificativa para esse tipo de ataque”, afirmou.

Bueno lembrou que, por trás das estatísticas do comércio internacional, estão trabalhadores e trabalhadoras que podem perder seus empregos caso não haja medidas de proteção. Como exemplo, citou o setor da carne bovina: em 2024, o Brasil exportou cerca de 230 mil toneladas do produto para os Estados Unidos, enquanto a previsão para 2025 é de 400 mil toneladas.

“Esse crescimento impacta não apenas a economia, mas principalmente o emprego. Estamos falando de pessoas”, ressaltou. O dirigente enfatizou ainda que a OMC, mesmo focada em questões comerciais, deve se preocupar com os efeitos sociais de suas decisões.
Compromisso com o diálogo internacional

Para Renaldim Barboza Pereira, presidente da FETRACONSPAR e dirigente da NCST, a presença da entidade no encontro reafirma a disposição de fortalecer o diálogo internacional.

“Com essa agenda, a NCST reafirma seu compromisso com o diálogo e com a defesa dos interesses da classe trabalhadora no cenário global”, destacou.

Entrega de documento oficial

O documento assinado pelas principais centrais sindicais brasileiras (CUT, Força Sindical, UGT, CTB, CSB e Nova Central), denuncia as ações unilaterais e protecionistas dos Estados Unidos, que vêm impondo tarifas arbitrárias contra diversos países, incluindo o Brasil. Segundo o documento, essas medidas afrontam os princípios do sistema multilateral de comércio, ameaçam a soberania nacional e colocam em risco mais de 700 mil empregos no país.

O manifesto também defende a intensificação da cooperação internacional, a busca de soluções pela via multilateral e o fortalecimento de uma ordem mundial multipolar, inclusiva e democrática, com pleno respeito às normas internacionais e ao papel da OMC.

Leia a íntegra do documento

O movimento sindical brasileiro muito respeitosamente se dirige à Organização Mundial do Comércio (OMC), e à sua diretora geral a Sra. Ngozi Okonjo-Iweala, na esperança de que os instrumentos globais que estimulem o multilateralismo e a melhora das relações entre os países ainda possam criar novos caminhos para um mundo mais justo e menos conflituoso.

O Brasil é um país de dimensões continentais, diverso, e em busca constante de avançar economicamente para que haja um desenvolvimento que conjugue justiça social e sustentabilidade ambiental. Sua economia diversificada possui relações com inúmeros países no mundo, sempre pautada pela busca do cumprimento dos princípios do comércio internacional acordados desde o GATT (General Agreement on Tariffs and Trade, de 1947) até os discutidos na OMC, assim como das regras de trabalho decente e sobre proteção ambiental.

No período atual, o necessário para que as relações econômicas no mundo sejam “ganha-ganha” para todos os envolvidos é o respeito às normas e acordos vigentes e a existência de espaços multilaterais para discussão de controvérsias. Sem isso, o mundo fragmenta-se, reduzem-se a efetividade dos acordos e crescem as desigualdades e a desorganização econômica e social.

Os Estados Unidos, ao atacar recentemente de forma unilateral o Brasil com um aumento desproporcional de tarifas de importação, avança sobre estes dois elementos: rompe toda uma lógica de acordos comerciais pré-estabelecidas e, mais do que isso, impõe sua visão individual sobre discussões realizadas em espaços multilaterais. Dessa forma, estimula o conflito econômico do mundo, em um processo no qual não existem vencedores, somente perdedores.

Estas ações do governo americano não são novas. Há uma condenação mundial sobre as recentes medidas protecionistas e unilaterais adotadas pelo governo dos Estados Unidos, que impõem tarifas arbitrárias sobre produtos de diversos países, em um ataque frontal ao sistema multilateral de comércio e aos princípios da cooperação internacional. Essas ações não apenas violam compromissos assumidos no âmbito da OMC, acabando com a previsibilidade e estabilidade do comércio global, como também constituem uma guerra comercial que impacta todo mundo, mas especialmente os países do Sul Global – ameaçando a soberania, os empregos e o direito ao desenvolvimento sustentável.

Essas medidas estão sendo duramente impostas a diversos países, pressionando-os a aceitar negociações bilaterais desequilibradas. No caso do Brasil, a situação é agravada pela declarada tentativa de intervenção política no Judiciário brasileiro, em detrimento dos direitos do povo, do Estado de Direito e da soberania nacional – em afronta direta ao princípio da não intervenção nos assuntos internos, pilar fundamental da Carta da ONU e norma basilar das relações internacionais.

Os impactos econômicos, no caso brasileiro, não são desprezíveis: considerando que aproximadamente 40% da pauta exportadora do Brasil para os Estados Unidos estão submetidos ao aumento das tarifas, poderá haver um impacto negativo no curto prazo de até 0,36% no PIB e serem cortados mais de 726 mil postos de trabalho. Cadeias produtivas extensas, como na indústria de transformação e na agricultura, e com forte impacto regional e nacional, já estão sendo afetadas, por mais que o governo brasileiro esteja empenhando enormes esforços para proteger empregos e a renda. E o mais intrigante é essa decisão do governo americano, com seus potenciais impactos negativos para o Brasil, ocorre em relação ao comércio com um país no qual ele exporta mais do que importa ininterruptamente desde 2009, e no qual já acumulou mais de US$ 90 bilhões FOB de superávit comercial desde então.

O movimento sindical brasileiro condena o uso de tarifas, sanções e outras medidas coercitivas como armas em disputas geopolíticas e comerciais, e defende o fortalecimento de uma ordem internacional multipolar, inclusiva e democrática, com pleno respeito às normas internacionais e ao papel da OMC.

Defendemos que urge intensificar a cooperação entre não só o Brasil, mas também outros países afetados por estas arbitrariedades pela via diplomática e pela OMC, criando parcerias estratégicas, reduzindo assim a dependência de sistemas hegemônicos e protegendo empregos e economias locais.

Reafirmamos nosso compromisso com o trabalho decente, a justiça social, a democracia e a paz, e conclamamos o sistema multilateral, no qual a OMC é parte essencial, a auxiliar na coordenação entre os países e no diálogo com os sindicatos e demais stakeholders e atores sociais, contra políticas comerciais desta natureza que são abusivas, ameaçam a soberania de nossos países, o desenvolvimento econômico e a justiça social.

Assinam

José Reginaldo Inácio, da Nova Central Sindical dos Trabalhadores (NCST)
Sergio Nobre, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT)
Ricardo Patah, da União Geral dos Trabalhadores (UGT)
Miguel Torres, da Força Sindical
Adilson Gonçalves de Araújo, da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB)
Antônio Neto, da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB).
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