Faltou querosene de aviação em Brasília e combustível nos postos fluminenses. Com falta de componentes, indústria também sente efeitos na produção.
Bloqueios já atingem rodovias de 24 estados
Caminhoneiros bloqueiam estradas por todo o País nesta quarta-feira 23. É o terceiro dia seguido de paralisação da categoria, que protesta contra a alta no preço do diesel e não houve recuo
mesmo após a Petrobras anunciar uma redução (
https://www.cartacapital.com.br/economia/caminhoneiros-voltam-a-bloquear-estradas-contra-o-alta-do-diesel ) do preço dos combustíveis.
A partir de hoje o preço da gasolina cairá 2,08% e o do diesel 1,54%, corte anunciado ontem. Nesta quarta-feira, novo anúncio: o preço do litro da gasolina baixou mais 0,62%, para 2,0306 reais, e o do diesel caiu 1,14%, para 2,3083 reais. Esses são os preços na refinaria. Os caminhoneiros argumentam que os cortes são insuficientes e não chegam integralmente aos postos de combustíveis.
Na tentativa de encerrar a greve dos caminhoneiros, que já atinge 24 estados, o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, anunciou na noite de ontem que o governo vai zerar a cobrança da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (
Cide) sobre o diesel, também reivindicação dos grevistas.
Em contrapartida, o governo quer que o Congresso aprove a reoneração da folha de pagamento. Há cautela quando o assunto é corte de tributos. Zerar a Cide amplia a perda de arrecadação em um momento de aperto fiscal. A estimativa é de renúncia de 2,5 bilhões de reais com a Cidemas, mas de um ganho de 3 bilhões de reais com a reoneração.
Os bloqueios são é organizados pela Associação Brasileira dos Caminhoneiros (
Abcam), que representa motoristas autônomos, por isso a paralisação não envolve veículos fretados. Segundo a entidade, as medidas do governo e da Petrobras não terão impacto sobre as mobilizações. Em nota, o presidente da Abcam, José da Fonseca Lopes, reforçou o pedido para que a categoria mantenha os atos sobretudo nas rodovias.
Segundo a Associação, 300 mil caminhoneiros aderiram às manifestações na terça-feira, 100 mil a mais que no dia anterior. Ainda não há um balanço dos protestos desta quarta-feira.
Desabastecimento
Segundo informações do portal G1, comerciantes da Ceesa do Rio de Janeiro afirmam que muitas mercadorias estão presas nas estradas e não chegam à cidade. Às quartas-feiras, descarregam em média 340 caminhões durante a madrugada. Mas hoje foram só 75. A maioria que consegue chegar vem de dentro do Estado do Rio. De fora vêm frutas e legumes.
De acordo com a Associação Brasileira de Proteína Animal (
ABPA), pode haver falta de alimentos caso a greve continue, já que "os bloqueios impedem o transporte de aves e suínos vivos, ração e cargas refrigeradas destinadas ao abastecimento das gôndolas no Brasil ou para exportações". Os protestos têm impedido a chegada de ração para as criações, a retirada de carnes dos armazéns das fábricas e também a chegada de animais para abate.
Ainda no Rio motoristas enfrentam longas filas para abastecer seus veículos, já que muitos postos não receberam combustível devido à greve. Em Brasília, o problema foi no aeroporto. Ontem voos provenientes do Rio, Belo Horizonte e São Paulo foram cancelados porque não haveria querosene de aviação disponível na capital federal para abastecer as aeronaves.
A indústria também sente os efeitos das paralisações. A General Motors informou que a greve afetou o fluxo logístico de suas fábricas e as linhas de produção começam a ser paralisadas. Também por falta de entrega de componentes a Ford paralisou a produção de automóveis em Camaçari, na Bahia, e de motores em Taubaté, no interior de São Paulo.
O Tecon Santos, principal terminal da Santos Brasil, não recebeu nem expediu caminhões na terça-feira devido ao bloqueio. Normalmente, o Tecon Santos, um dos maiores terminais de contêineres do País, recebe em média 2.200 caminhões por dia. A operação de cais não enfrenta problemas.
A Administração do Portos de Paranaguá e Antonina (
Appa) informou que dos 1,4 mil caminhões carregados de grãos que estavam programados para chegar aos portos paranaenses ontem apenas 333 conseguiram dar entrada. Os demais foram impedidos pelos protestos dos caminhoneiros.
De acordo com o Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (
Inda), a greve estaria travando as entregas de algumas distribuidoras de aço. A entidade fez uma pesquisa informal e calculou que a ação dos motoristas de caminhão afetou o faturamento diário de suas associadas em 40% a 60%.
Os Correios suspenderam temporariamente as postagens das encomendas com dia e hora marcados (Sedex 10, 12 e Hoje). Em comunicado, a estatal informou também que a paralisação tem gerado "forte impacto" e atrasos nas operações da empresa em todo o País.
Reivindicações
Os caminhoneiros pedem também mudanças na política de reajuste dos combustíveis da Petrobras, o que já foi descartado pelo presidente da estatal Pedro Parente. Adotada em julho de 2017
A nova política de reajustes, adotada pela Petrobras em julho do ano passado, determina que os valores dos combustíveis sofram alterações diárias que acompanhem a cotação internacional do petróleo e a variação do câmbio.
Como o dólar e o preço do óleo em trajetórias ascendentes, segundo a Agência Nacional do Petróleo, do Gás Natural e dos Biocombustíveis (
ANP), o preço médio do diesel nas bombas já acumula alta de 8% no ano. O valor está acima da inflação acumulada no ano de 0,92%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (
IBGE).
A atual política de preços da Petrobras é bem-vista por investidores por acompanhar o padrão adotado em outros países. Alterá-la agora seria interpretado como intervenção do governo na estatal.
Segundo a Federação Única dos Petroleiros, a Petrobras também reduziu a carga das refinarias, que operam atualmente com 75% da capacidade em vários estados. A medida visaria beneficiar os importadores de combustíveis. No ano passado, o Brasil importou mais de 200 milhões de barris de derivados de petróleo, número recorde da série histórica da
Agência Nacional do Petróleo (
https://www.cartacapital.com.br/economia/anp-projeta-reserva-de-libra-em-ate-15-bilhoes-de-barris ).
Fonte: CartaCapital