- A MÁGOA PRINCIPAL ERA CONTRA FHC
- SUBLEVOU MINAS, COM APOIO DO MOVIMENTO SINDICAL, CONTRA PRIVATIZAÇÃO DE FURNAS
O maior sentimento de contrariedade que o ex-presidente Itamar Franco carregava era em relação à ingratidão do também ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso.
De longe, mas de muito longe, o fato que mais o incomodou foi a guinada de FHC que após a morte de Itamar admitiu, de forma pública, que só chegou à presidência com a ajuda decisiva do Plano Real de Itamar Franco.
FHC foi ingrato por nunca, antes, da forma como queria o ex-presidente Itamar, ter dado a ele a glória da criação do Plano Real, embora tenha dele se beneficiado para se eleger presidente.
Pode-se dizer que esse comportamento de Fernando Henrique Cardoso transformou-se em sentimento de ódio por parte de Itamar Franco em relação a FHC, cultivado desde sempre. Quando governador de Minas, Itamar sublevou o Estado contra FHC pela tentativa de privatização de Furnas e pela revisão do contrato de financiamento da dívida de Minas Gerais com a Caixa Econômica Federal que ainda consome cerca de 13% da receita estadual.
Brigas justas, que contou com o apoio do movimento sindical.
Achava que não era reconhecido e que talvez após a sua morte lhe fizessem justiça, reconhecendo a sua importância como estabilizador da economia.
TRÂMITES DO VELÓRIO
O corpo do ex-presidente Itamar Franco (1992-1994), de 81 anos, foi cremado em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais. A cerimônia de cremação atendeu a um pedido do ex-presidente. As cinzas serão depositadas no jazigo da família, no Cemitério Municipal de Juiz de Fora (MG).
Itamar se licenciou do Senado poucos dias depois para realizar o tratamento contra a doença e, segundo os médicos, vinha respondendo bem às sessões de quimioterapia.
No dia 27 de junho, porém, boletim médico mostrou que o senador havia contraído uma pneumonia grave e foi transferido para a UTI (Unidade de Tratamento Intensiva) do hospital. A leucemia havia sido detectada após o ex-presidente realizar exames devido a uma forte gripe.
O ex-presidente, que governou o país de 1992 a 1994, após a renúncia de Fernando Collor de Mello, completou 81 anos no último dia 28 de junho. Itamar também governou o Estado de Minas Gerais entre 1999 e 2003 e foi eleito senador no ano passado, com 5.125.455 votos.
PERFIL
O engenheiro Itamar Augusto Cautiero Franco nasceu em 28 de junho de 1930 a bordo de um navio. Ele foi registrado em Salvador (BA). Sua carreira política teve início no MDB (Movimento Democrático Brasileiro), legenda pela qual foi eleito prefeito de Juiz de Fora em duas gestões, entre 1967 e 1971 e entre 1973 e 1974.
Também representando o MDB, Itamar chegou a Brasília para seu primeiro mandato como senador em 1974. Ele se reelegeu em 1982, já como militante do PMDB.
Quatro anos depois, Itamar migrou para o PL, após divergências com o diretório mineiro do PMDB. Ele chegou a concorrer ao governo de Minas, mas perdeu a disputa para a antiga legenda.
Em 1989, durante as primeiras eleições diretas para presidente depois da ditadura militar, Itamar foi eleito vice-presidente do Brasil pelo PRN, na chapa de Fernando Collor de Melo. Collor recebeu 20 milhões de votos no primeiro turno e 35 milhões no segundo turno, contra o petista Luiz Inácio Lula da Silva.
PRESIDÊNCIA
Itamar Franco assumiu a Presidência da República em 2 de outubro de 1992, depois da renúncia de Collor e do processo que levou ao seu impeachment. O mineiro nascido na Bahia permaneceu no cargo de comandante em chefe da nação durante dois anos, três meses e 29 dias.
Seu governo foi marcado por uma coalizão de partidos com o objetivo de garantir a governabilidade e a estabilidade democrática após o processo de impeachment que mobilizou a sociedade e os crescentes problemas econômicos, como a escalada da inflação.
Entre os feitos de Itamar como presidente está a aprovação do IPMF (Imposto Provisório sobre Movimentação Financeira) que, em 1996, passou a se chamar CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira).
Em 1993, o governo realizou um plebiscito previsto na Constituição de 1988 para escolher a forma e o sistema de governo brasileiros. O resultado confirmou o regime republicano e o sistema presidencialista.
Ainda durante a gestão de Itamar, em 1993, Fernando Henrique Cardoso foi nomeado ministro da Fazenda, e incumbido com a tarefa de combater a inflação. No mesmo ano, o Brasil adotou o Cruzeiro Real, e foi lançado o Plano de Estabilização Econômica, que preparava o país para a introdução de uma nova moeda.
Em julho de 1994, o real começou a circular.
A estabilidade econômica do Plano Real garantiu a FHC a vitória na disputa presidencial daquele ano.
VIDA PÚBLICA
Desde que passou a faixa de presidente a FHC, em 1º de janeiro de 1995, Itamar seguiu na vida pública. Ele se tornou embaixador do Brasil em Portugal entre 1995 e 1996 e, depois, representou o país na OEA (Organização dos Estados Americanos) de 1996 a 1998.
Neste ano, depois de não ter conseguido a indicação do PMDB para disputar a Presidência, Itamar venceu as eleições para o governo de Minas Gerais.
Ele tentou concorrer nas eleições presidenciais de 2002 e 2006, mas perdeu a indicação do partido novamente para outros candidatos. Em 2009, Itamar anuncia sua filiação ao PPS e, no ano seguinte, disputa as eleições para o Senado.
O ex-presidente foi eleito senador por Minas com 5.125.455 votos. O suplente que vai assumir a vaga, para cumprir quase todo o mandato, é José Perrela, presidente do Cruzeiro. Ele ganha a vaga no Senado e, ao mesmo tempo, o benefício do foro privilegiado para se defender de investigação do Ministério Público.