Uma ditadura em uma democracia

Data de publicao: 19 Fev 2019


Sabemos ser muito cedo para tecermos uma opinião concreta sobre as bases políticas do governo Bolsonaro. Mas, podemos perceber algumas semelhanças ou coincidências com o passado.






por Raphael Silva Fagundes e Wendel Barbosa




A censura se funda como um desdobramento repressivo dos governos, impelidos pela necessidade de manter o controle social sobre a informação. Nos anos de 1960, no Brasil, houve um processo de institucionalização dessa prática, na medida em que foram criadas leis que a regulasse. Naquela época, esse mecanismo repressivo foi consolidado na noite do dia 13 de dezembro de 1968. Na ocasião, o então Ministro da Justiça, Gama e Silva, e o locutor Alberto Cury, ocuparam cadeia nacional de rádio e TV para ler os doze artigos do Ato Institucional nº 5 (AI-5) e o Ato Complementar nº 38 que previa o fechamento do Congresso sem prazo determinado, em uma tentativa de impedir que os ideais superiores da “Revolução” fossem frustrados, num pronunciamento onde a palavra “democracia” foi pronunciada dezenove vezes.

A defesa da ideia de uma normalidade democrática nos chamados “Anos de chumbo” é importantíssima de se debater. Um regime ditatorial, é bom frisar, não se anuncia. Todo ditador acredita que seu Governo é democrático. Ele vende essa imagem. E cria, inclusive, mecanismos para dar um “ar” de legalidade ao mesmo. Getúlio Vargas fez isso durante o período do Estado Novo (1937-1945). Os militares que governaram o país entre 1964 e 1985, porém, foram além. Havia uma preocupação de dar uma “legalidade autoritária” ao regime, na medida em que foram criados leis e tribunais (militares e civis) que davam sustentação a ordem estabelecida pelo golpe de Estado.

Sabemos ser muito cedo para tecermos uma opinião concreta sobre as bases políticas do novo governo. Mas, podemos perceber algumas semelhanças ou coincidências com o passado. Há um vislumbre, que de tão trágico chega a ser jocoso, do período da ditadura por parte dos novos donos do poder no país. E esses indícios de autoritarismo podem vir a colocar em xeque a nossa normalidade democrática.





A censura à COAF (órgão que gerou mais de mil relatórios para a Lava Jato), é um exemplo disso. Num governo de coincidências aviltantes, essa censura foi decretada dias depois da divulgação do relatório do órgão denunciando o envolvimento do Senador eleito Flavio Bolsonaro e seu ex-assessor/motorista Fabricio Queiroz num esquema de corrupção. O interessante é que essa investigação, sobre as movimentações financeiras suspeitas de Queiroz, foi freada durante o período eleitoral, não tendo nenhuma movimentação relevante entre os meses de setembro e outubro. Querem mais coincidências? Um pouco depois do relatório da COAF se tornar público, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, suspendeu, temporariamente, a investigação envolvendo os dois. Assim como as ações penais em que Bolsonaro é réu no Supremo.

Podemos citar ainda o recente decreto que muda a Lei de Acesso à Informação (LAI), para permitir que cargos comissionados possam classificar informações oficiais com o grau máximo de sigilo: de 25 anos (dados ultrassecretos) ou 15 anos (dados secretos). Na prática, o documento, assinado pelo vice-presidente Hamilton Mourão, em exercício da Presidência devido à viagem de Bolsonaro ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, ampliará o número de documentos sigilosos, algo criticado pelas entidades e especialistas no tema. Já que tal sigilo prejudica a transparência das ações do próprio Governo.

Outra coincidência é o discurso de ameaça comunista e o combate à qualquer vestígio de sua ideologia. É o mesmo que colocou os militares no poder, em 1964. Nesse sentido, não é de se estranhar o elogio constante do Presidente Jair Bolsonaro – e por extensão dos seus filhos – ao torturador, Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (ex-chefe do DOI-CODI). O estranho é o mesmo criticar o governo venezuelano, tachando Nicolás Maduro de ditador, na medida em que defende ditadores.

Tivemos ainda a exoneração de funcionários em cargo de confiança do Governo Federal por questão ideológica. Na ocasião, cerca de trezentos funcionários comissionados foram sumariamente demitidos. Em nota, o Ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, disse se tratar de uma “despetização”. Da mesma forma, em novembro do ano passado – diante da divulgação de questões do ENEM de interpretação textual, onde foi abordado temática relativa a um tipo de dialeto falado por gays e travestis, o “pajuba” – Bolsonaro disse que sua equipe iria vistoriar as futuras provas antes de sua aplicação. Ao que a professora Mari Inês Fini – então presidente do INEP (responsável pela aplicação do exame) – respondeu lamentar leituras equivocadas sobre a questão e que “não é o governo que manda na prova”. Eis que o novo presidente do instituto, empossado pelo novo Governo, Marcus Vinicius Rodrigues, diz que revisará questões do ENEM para evitar “posturas ideológicas”. Essas ações são muito semelhantes com a dos generais presidentes nos anos de 1960. Que, blindados pelo AI-5, poderiam destituir qualquer funcionário público que nutria um posicionamento ideológico diferente do governo.

Na década de 1970, o Brasil vivia uma espécie de auge econômico, chamado de “milagre brasileiro”. O mesmo foi utilizado como propaganda positiva ao governo. Tudo acontecia sob o impacto do AI-5 e da ampliação do poder dos órgãos de repressão. De acordo com Thomas Skidmore, entre os anos de 1968 e 1974, a economia brasileira sofreu uma notável expansão, refletida no crescimento anual de cerca de 11.2% do Produto Interno Bruto (PIB) e de uma inflação estabilizada em 18%. Por trás disso os grandes recursos naturais brasileiro serviram como fiança aos grandes empréstimos contraídos. As empresas multinacionais aproveitaram para fazer os seus investimentos. Todavia, a facilidade de créditos internacionais faria o Brasil adquirir, ainda durante o regime militar, a maior dívida externa da História.

Coincidentemente, novamente, estamos vivendo uma nova aplicação dessa política. O Governo de Bolsonaro utiliza de mecanismos parecidos. O mesmo já se mostrou extremamente disposto, por exemplo, a entregar algumas de nossas reservas naturais a outros países. Na década de 1990, foi uma política parecida com essa que levou o então presidente Fernando Henrique Cardoso, a privatizar a mineradora Vale do Rio Doce. Agora uma bilionária multinacional que voltou aos noticiários diante da tragédia em Brumadinho. O segundo rompimento de uma barragem da empresa em menos de quatro anos.

Todo o crescimento econômico ocorrido durante a ditadura não representou a melhoria do padrão de vida do brasileiro médio. O presidente Médici, em 1974, chegou a declarar que “a economia vai bem, mas o povo vai mal”. O mesmo acontece agora. Em diversas ocasiões, Bolsonaro comemora alguns índices econômicos, como a alta da Bolsa de valores e a baixa do dólar. A ideia, assim como os ditadores brasileiros faziam, é dar sustentabilidade retórica ante a opinião pública do sucesso de seu governo. Isso, porém, não gera um impacto imediato na vida do brasileiro médio. É algo parecido com o que Médici disse. Dessa forma, tais índices se apresentam como “cortina de fumaça”, já que os juros continuam elevadíssimos, o poder de compra do brasileiro continua baixo, os índices de desemprego e informalidade continuam elevados, as políticas públicas que possam promover a justiça social continuam estagnadas e os direitos trabalhistas do brasileiro médio cerceados.

Por fim, podemos citar a condenação da imprensa, ou quaisquer veículos de informação, que pautem informes que desqualifiquem as ações da equipe de Bolsonaro. A lógica é bastante simples: se a função social da imprensa é guiar a opinião pública, quando o apoio sofre uma retração a culpa é a forma como se noticia o acontecimento. Pois, cada “vez que seus apoios se retraem, todo governo tende a incriminar os meios de comunicação, que não explicariam convenientemente sua ação”.

Nos anos de 1960 e 1970, existiam níveis de censura: a política, reflexo de imposição ideológica do poder político; a econômica, onde tais empresas se autocensuram para escapar de possíveis perseguições e prejuízos financeiros; e a moral, onde tais empresas, através de uma política do silêncio, organizam os fatos que devem ser lembrados, se tornando órgãos de propaganda do governo ao tentar construir uma imagem positiva do mesmo. Nesse último caso, as empresas abriam seu espaço, por exemplo, para “furos”. Algo semelhante com as entrevistas exclusivas conseguidas, atualmente, pela rede Record. Soma-se a tudo isso um mecanismo novo que não existia na época da ditadura: a internet. Há um processo de “santificação” das redes sociais, que são apresentadas por Bolsonaro como um dos poucos canais que seriam capazes de cobrir a verdade dos fatos por detrás das ações de seu Governo. Algo que teve início quando ainda era parlamentar e que ganhou força durante a campanha eleitoral. A título de curiosidade, um estudo organizado pela organização Avaaz, apontou que 98,21% dos eleitores de Bolsonaro foram expostos a “fake news” pelas redes sociais. E quase 90% dos mesmos acreditaram que os fatos eram verdadeiros.

O AI-5 e a passividade por ele gerada foi uma das fórmulas encontradas pelo Governo, na época, para o restabelecimento de uma suposta ordem perdida. A sociedade foi obrigada a fechar os olhos no mar intranquilo, de ondas pouco afáveis, em que o Brasil estava navegando. Não obstante, o Jornal do Brasil, em editorial do dia 14 de dezembro de 1968, um dia depois da promulgação do AI-5, estampou a chamada: “Ontem foi o dia dos cegos”. Hoje essa cegueira não precisa mais ser forjada por mecanismos jurídico-constitucionais como os atos institucionais. Existem artifícios retóricos que turvam a visão de muitos. Nesse sentido, o Governo não precisa vedar o cidadão. Ele mesmo está disposto a fazer isso.

É nesse ponto que reside a diferença. Mesmo que, àquela época, houvesse grande parcela da população que apoiou a ditadura, tal regime foi instalado mediante o uso da força. Hoje ele foi eleito democraticamente. Lembra os carrascos voluntários de Hitler, pessoas comuns que apoiaram o ditador e, ainda, denunciavam judeus, comunistas etc. Boa parte da estrutura do Governo é composta por militares. A começar pelo Presidente (um ex-capitão do exército) e o vice-presidente (um general do exército). Salvo isso, desde o início da nova gestão, militares tem sido colocados em ministérios (sete dos vinte e dois ministros) e cargos estratégicos.

O acordo tácito entre o judiciário, a mídia, os empresários e a direita produziu um discurso de ódio que se alastrou com o auxílio das redes sociais. O povo seguiu exatamente o que foi planejado pelas elites. Enquanto nos anos 1960 foi necessário uma ditadura para implantar uma política econômica austera, hoje o povo a escolheu voluntariamente. O terrorismo de Estado (a ditadura clássica) só é exercido quando o convencimento não é suficiente. Os instrumentos de persuasão de hoje dispensam a necessidade de uma ditadura. Portanto, mantém-se a democracia com elementos ditatoriais.

Parece que um contrato foi assinado pela população: nós (o governo eleito) iremos acabar com a corrupção e, em troca, vocês perderão os direitos. Até porque durante a campanha, Bolsonaro e seu círculo já diziam que iriam tirar direitos. Ninguém pode dizer que não foi avisado.

Ao resumir política à corrupção, a maioria acredita que fez um grande negócio, mas indícios de corrupção já estão aparecendo e quando a carteira de trabalho verde e amarela entrar em vigor, a ficha vai cair e muitos irão perceber que tudo não passava de um projeto de poder encabeçado pelos grupos mais sórdidos da sociedade.



* Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da Uerj e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

** Wendel Barbosa é pós-graduado em História social e cultural do Brasil pela FEUC e professor da rede estadual e particular de ensino.






Fonte: Le Monde Diplomatique


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