Mulher, indígena e empoderada

Data de publicação: 13 Jun 2018




A comunidade Terena da aldeia Ipegue-Taunay, no Mato Grosso do Sul, vive em clima de instabilidade e grande desafio para o reconhecimento de seu território. Segundo relatório antropológico, aprovado pela FUNAI (Fundação Nacional do Índio), o processo de demarcação desta terra está suspenso no Ministério da Justiça. A família de Taily Terena vive na região e tem, diariamente, de lidar com os contratempos para resguardar os direitos indígenas.

Filha de liderança indígena, Taily cresceu no ambiente de luta pelos direitos garantidos na Constituição Federal. Ela sempre se envolveu em causas que resguardassem os direitos do seu povo, valorização de sua identidade e contra o preconceito que sua comunidade sofre. Por isso, a jovem integra o grupo da juventude do Conselho Nacional de Mulheres Indigenas representando os Terena e sua cultura.

Como membro da Comissão, Taily tem o trabalho (e desafio) de compartilhar com os jovens a importância do povo indígena para o Brasil, sua cultura, de sua comunidade e ainda, de mostrar o papel da mulher indígena nessa engrenagem. Pelo fato de a cultura indígena ainda demarcar o papel da mulher versus o papel do homem, seus rituais separados e outros deveres, o povo Tarena entende que cada um tem um papel na construção de sua cultura. Reuniões de comunidades, por exemplo, há somente a participação de homens, a não ser que as mulheres sejam convidadas.

A mulher ainda tem um papel pontual na cultura indígena, que é a de costurar os pontos entre manter a família, educar os filhos e passar a tradição para os demais. “O papel da mulher indígena é manter viva a nossa cultura e identidade. É manter vivo o nosso ser”, conta ela.

Mas, em sua comunidade, Taily já vê um progresso desse papel imposto: “Na minha comunidade o que eu vejo é que as mulheres indígenas tem ocupado outros espaços. Antigamente só homem podia ser pajé e hoje já temos mulheres pajés que tem trazido seus saberes de cura”.

O trabalho que ela desempenha na Comissão tem ajudado, principalmente, a mostrar para outras mulheres indígenas a relevância de seus trabalhos manuais e fortalece-las. Saber o valor de seus produtos, arte e artesanatos é uma maneira de empoderá-las, uma vez que ainda são os homens que dão o valor ao seus trabalhos. Por isso, exercendo essa função, elas também estão se valorizando e dando mérito a sua história e sabedoria. “O fato é que queremos mais oportunidade e qualidade na educação, porque isso poderia nos abrir horizontes. Nós somos indígenas como identidade, mas podemos ser muito mais”.





O preconceito contra os indígenas ainda é muito presente na sociedade, que tem uma visão estereotipada do povo (e hipersexualizada da mulher). “Quando o jovem tem que sair da sua aldeia para poder ir na cidade estudar, ou trabalhar, porque os pais migraram, vem essa questão de você aceitar sua identidade, se reconhecer como indígena e isso é muito difícil. Até os dias de hoje, as pessoas que vão para a cidade acabam dizendo que não são índios, são só descendentes”, relatou Taily.

A Comissão tem trabalhado fortemente para que os jovens se reconheçam como indígenas e vejam a importância dessa cultura. “Ver jovens postando nas redes sociais dizendo Orgulho de ser Terena, fotos com seus trajes, pintura, saindo no dia do índio para dançar me dá muito orgulho, porque sei que de certa forma eu plantei algum tipo de semente ali”, enfatizou Taily, que concluiu: “Onde quer que eu esteja, eu vou ser Taily Terena. Taily como pessoa, mas Terena como povo”.

*Mélanie Aguiar Layet é jornalista e membro da delegação brasileira da 62ª Comissão das Nações Unidas sobre a Situação das Mulheres, em Nova Iorque.


Fonte: Le Monde Diplomatique

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