Fim do sonho americano?

Data de publicao: 14 Maio 2018

A enrolação econômica de Reagan fracassou nos Estados Unidos, mas há quem defenda o mesmo para o Brasil.



A macroeconomia de Ronald Reagan defendia a tese do “gotejamento”



por Luiz Gonzaga Belluzzo



Em entrevista ao TimesNow, site do gigante indiano Times Group, Joseph Stiglitz faz uma avaliação pessimista, eu diria aflitivamente pessimista, dos rumos da economia e da sociedade americanas.

O nobelizado Stiglitz diz que tudo começou com Reagan nos anos 1980 do século passado. Nos círculos políticos e acadêmicos de então vicejava a economia da oferta. Eram poucas e simples as ideias: “Abandonar a regulação, reduzir as alíquotas que incidiam sobre os rendimentos mais elevados. A redução das alíquotas incentivaria a atividade econômica e a desregulamentação ampliaria o âmbito de atuação das corporações privadas”.

Continua Stiglitz: combinados, a redução de impostos para os ricos e a abertura de espaços para o setor privado iriam desatar um crescimento mais rápido da economia, com ganhos de produtividade e benefícios de todos. 

“Após três décadas, é possível declarar que a experiência foi um fracasso. O crescimento reduziu seu ritmo e seus resultados beneficiaram os poucos situados no topo, 1% da população, ou, ainda pior, beneficiou muito mais a turma da cumeeira, um décimo do 1%. A maioria dos americanos sofreu a estagnação dos rendimentos e os deseducados e pouco qualificados sofreram em dobro. O resultado foi a criação de um ambiente de escassez de oportunidades, o sonho americano tornou-se um mito” (tradução livre).

A macroeconomia de Ronald Reagan defendia a tese do “gotejamento”: as camadas trabalhadoras e os governos receberiam os benefícios da riqueza acumulada livremente pelos abonados empreendedores sob a forma de salários crescentes e aumento das receitas fiscais.

A enrolação do gotejamento não entregou o prometido. A migração da grande empresa para as regiões de baixos salários, a desregulamentação financeira e a prodigalidade de isenções e favores fiscais para as empresas e para as camadas endinheiradas não promoveram a esperada elevação da taxa de investimento no território americano e, ao mesmo tempo, produziram a estagnação dos rendimentos da classe média para baixo, a persistência dos déficits orçamentários e o crescimento do endividamento público e privado. A procissão de desenganos foi acompanhada da ampliação dos déficits em conta corrente e da transição dos Estados Unidos de país credor para devedor.

crise da classe média americana não é fruto da Grande Recessão, iniciada em 2008, mas é um fenômeno de longo prazo. Desde 1973 até 2010, o rendimento de 90% das famílias americanas cresceu 10% em termos reais, enquanto os ganhos dos situados na faixa dos super-ricos – a turma do 1% superior – triplicaram. Pior ainda, a cada ciclo a recuperação do emprego é mais lenta e, portanto, maior é a pressão sobre os rendimentos dos assalariados.

Mobilidade do capital financeiro e, ao mesmo tempo, centralização do capital produtivo à escala mundial. Os lucros foram gordos para os senhores da finança e para as empresas empenhadas no outsourcing e na “deslocalização” das atividades para as regiões de salários “competitivos”. 

Nos Estados Unidos, os fatores decisivos para o comportamento decepcionante dos rendimentos da maioria da população foram, sem dúvida, a diminuição do poder dos sindicatos e a redução no número de sindicalizados, o crescimento do trabalho em tempo parcial e a título precário, e a destruição dos postos de trabalho mais qualificados na indústria de transformação, sob o impacto da concorrência chinesa.

O lento crescimento da renda das famílias de classe média foi acompanhado pelo aumento das horas trabalhadas, por conta da maior participação das mulheres, das casadas em particular, no mercado de trabalho. Nas famílias com filhos, as mulheres acrescentaram, entre 1979 e 2000, 500 horas de trabalho ao total despendido pelo casal.

Não resta sequer a ilusão de que a maior desigualdade foi compensada por uma maior mobilidade das famílias e dos indivíduos, desde os níveis mais baixos até os mais elevados da escala de renda e riqueza. Para surpresa de muitos, Stiglitz mostra que a mobilidade social nunca foi tão baixa no país das oportunidades.

Há 40 anos, se alguém perdesse o emprego, poderia se mobilizar contra o patronato, ou contra o governo, acusando-o de estar executando uma política econômica equivocada. Ainda que se possa fazer isso hoje, provavelmente o governo vai responder que tudo ocorreu como consequência inevitável da globalização.

Pergunta incômoda: o cidadão-leitor encontra semelhança entre o receituário fracassado de Ronald Reagan e as crenças de candidatos à Presidência da República Federativa do Brasil?



* Luiz Gonzaga Belluzzo é economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.





Fonte: CartaCapital

 

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