Enquanto corta do povo, Temer promete R$ 30 bi a políticos por Previdência

Data de publicação: 19 Jan 2018




por Leonardo Sakamoto



Quando o Brasil mergulhou nesta grave crise econômica, a população não foi convidada a contribuir. Foi obrigada. Disseram aos trabalhadores que todos deveriam dar sua cota de sacrifício para que o país voltasse a crescer e a gerar empregos.

Sob essa justificativa, o governo aprovou a PEC do Teto dos Gastos, congelando novos investimentos públicos por 20 anos, criando uma situação que lentamente vai estrangular (ainda mais) áreas como educação, saúde, cultura, pesquisa científica. Mas não apenas. Aprovou-se uma Lei da Terceirização Ampla e uma Reforma Trabalhista, que facilitaram a vida dos patrões e retiraram proteções sobre a saúde e a segurança dos empregados.

Enquanto isso, bilhões continuam a ser garantidos em forma de certos subsídios que fazem nosso capitalismo parecer de brincadeirinha. E bilhões continuam não sendo recolhidos como impostos por conta das isenções de dividendos a que os mais ricos têm direito ou das distorção da tabela do Imposto de Renda, que não conta com alíquotas mais altas para quem ganha muito. E bilhões em juros e multas de dívidas de grandes empresas são perdoados na esteira da rejeição da denúncia contra Temer na Câmara dos Deputados.

Ou seja, com a desculpa da crise, precarizamos a vida daqueles que já viviam de forma precária. E mantivemos protegida a vida dos mais ricos.

O que passa pela cabeça de trabalhadores, que fazem bicos todos os dias para sobreviver, esfolam-se no serviço até não aguentar mais com medo de engrossar a fila do seguro-desemprego, recebem um salário de fome e dependem de programas de renda mínima, quando são informados que o governo está gastando o que não tem para tentar aprovar uma Reforma da Previdência com a qual eles não concordam e sobre a qual não foram consultados?

Por exemplo, quando eles ficam sabendo que o governo calcula que pode desembolsar até R$ 30 bilhões em emendas parlamentares para garantir apoio à votação da reforma. Os valores foram levantados por Ricardo Galhardo e Thiago Faria, no jornal O Estado de S.Paulo desta sexta (19).

A solicitação de emendas para atender demandas justas da população faz parte da democracia. O problema é quando o processo de sua liberação inclui tomaladacás. A tática não é nova, pelo contrário, foi sistematicamente utilizada por todos os governos até aqui. O interessante desta vez é que ela tem o objetivo claro de compensar o prejuízo eleitoral que os deputados terão ao votar a favor da mudança nas aposentadorias. Ou seja, torcer para que o povo fique tão feliz com um esperado asfaltamento de rodovia vicinal que se esqueça que vai ter que se aposentar mais para frente.

Enquanto isso, o governo federal despejou outros milhões de reais em propaganda pró-reforma em veículos de comunicação e agências de publicidade, com especial atenção a rádios e TVs do Nordeste. São campanhas feitas não para informar sobre o tema, com todos os lados da questão, mas de convencer. A alta rejeição ao projeto preocupa os parlamentares da região, receosos de não serem reeleitos em 2018.

Nesse momento, algumas desses trabalhadores, de frente para a sua TV velha, sentem-se otárias, engolem o choro da raiva ou da frustração de ganharem como um passarinho, apesar de trabalharem como um camelo, e, pacificamente, torcem para a novela começar rápido e poderem, enfim, ver outra tragédia. Não porque precisam se mostrarem fortes – eles sabem que são. Mas porque percebem que o país não é deles mesmo.

Os que têm boa memória ainda se lembrarão, antes das primeiras imagens bonitas do Jalapão começarem a preencher a tela, da frase de caminhoneiro que Michel Temer citou em seu primeiro discurso: ''não fale em crise, trabalhe''.

Faltou só um ''e não reclame'' ao final. Mas, convenhamos, nem precisava dizer.



* Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.





Fonte: Blog do Sakamoto


A Construção de uma NOVA CENTRAL SINDICAL DE TRABALHADORES – NCST foi forjada na unidade, coragem e ousadia, capaz de propor uma alternativa de luta para os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. A NOVA CENTRAL SINDICAL DE TRABALHADORES marca um momento importante na história do Movimento Sindical Brasileiro, ela é a esperança transformada em realidade que se constitui como instrumento de luta e de unidade da classe trabalhadora do nosso País.

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