Um ano de Governo Temer, brasileiros ainda amargam efeitos da recessão

Data de publicação: 16 Maio 2017

Para Guilherme Santos Mello, professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica, o presidente Michel Temer não entregou o que prometeu para a economia brasileira e a aposta nas reformas e mudança do papel do Estado não deu resultados, e o país continua em recessão.

Segundo ele, o aumento da atividade econômica, celebrado pelo ministro da Fazenda Henrique Meirelles, é fruto de uma “fraude estatística”, uma vez que o IBGE mudou sua metodologia. Na sua opinião, a gestão é “um fracasso para trabalhadores, pobres e classe média”.

“Para quem é um sucesso o governo Temer? Para os bancos, que estão lucrando muito, e para os investidores financeiros de maneira geral. Quando você vê nos jornais a avaliação de que o Brasil está melhorando, é muito baseada na opinião dessas pessoas. Para elas, está de fato melhorando. Mas, para quem precisa de trabalho, de renda e crédito, o Brasil piorou”, disse Mello.

No último dia 12 de maio, Michel Temer completou um ano na Presidência. De abril de 2016 até março de 2017, o número de desempregados saiu de 11,4 milhões (11,2%) para 14,2 milhões (13,7%). E, embora o governo divulgue que a economia voltou a crescer, de fevereiro a março deste ano o setor de serviços teve redução de 2,3%, o maior recuo da série, iniciada em 2012. No mesmo período, a produção industrial caiu 1,8% e as vendas do comércio varejista 1,9%, no pior resultado em 14 anos.

“No geral, o governo não conseguiu entregar o que prometeu”, avaliou Guilherme Mello. Ele destacou que, quando Temer assumiu, já estava em curso um processo recessivo no país, que vinha desde 2015. Naquele momento, o próprio ministro da Fazenda de Dilma Rousseff, Joaquim Levy, já havia tratado de colocar em prática um pedaço da “estratégia liberal”, que incluiu corte de gastos, ampliação de juros e liberação dos preços administrados. O resultado do ajuste foi o aprofundamento da recessão.

“Então, o que Temer fez? Ele entrou prometendo retomar o crescimento por meio de reformas de longo prazo – terceirização, reforma trabalhista, da Previdência, PEC do teto de gastos. É como se ele falasse: ‘Levy fez o ajuste no curto prazo, mas não deu certo, não promoveu o crescimento, porque precisava fazer reformas de longo prazo. Precisa ser crível, confiável esse ajuste’”, diz Mello, sobre o discurso da gestão do PMDB.

De acordo com ele, essas reformas, contudo, alteram completamente a Constituição brasileira e o próprio paradigma do que é o Estado no Brasil. E, além de tudo, não têm servido para retomar a atividade econômica. “A aposta deles é assim: se a gente tirar o Estado brasileiro, o crescimento vai vir porque a confiança vai voltar. Então eles estão tirando completamente, sem colocar nada no lugar, mas o crescimento não vem, a confiança não volta e o desemprego não para de crescer”, criticou o economista.

Ilusão estatística

O governo tem anunciado que o país “entrou nos trilhos” e a retomada do crescimento "já começou". Segundo o professor da Unicamp, o discurso oficial não se sustenta, “é mera ilusão metodológica”. Isso por que, explicou, o otimismo da gestão é muito baseado em alguns indicadores de confiança – “mas confiança não é crescimento, porque eu posso estar confiante e não investir” – e em índices divulgados pelo IBGE em abril, que revisavam os indicadores relativos ao desempenho do comércio e dos serviços em janeiro.

A princípio, o órgão havia anunciado que, no primeiro mês do ano, as vendas do comércio caíram 0,7% em relação a dezembro, e os serviços recuaram 2,2%. Com a revisão, houve uma mudança brusca nos resultados. O comércio teria crescido 5,5% e o setor de serviços, 0,2%. A explicação para alteração tão intensa é uma mudança metodológica.

Para Guilherme Mello, a revisão é problemática, uma vez que não é possível comparar dados do ano passado – que utilizavam uma metodologia antiga, diferente – com as informações deste ano, coletadas a partir da nova metodologia. Na sua avaliação, do ponto de vista técnico, estatístico, a comparação é equivocada.

“É comparar laranja com banana. Com a mudança na metodologia, eles poderiam ter continuado a série antiga por mais um ano, para a gente perceber qual é a tendência, ou poderiam aplicar a metodologia nova para os dados antigos, para que a gente veja o que aconteceu no último ano. Mas eles se recusaram”, condenou.

Segundo o economista, o resultado revisado, portanto, não é confiável. “Fizeram essa comparação e aí aparece lá na estatística que tem crescimento. (…) Mas isso daí é uma fraude estatística. Não digo que a nova metologia seja uma fraude, pode ser muito bem feita, mas a comparação é que é equivocada. E eles se baseiam nessa comparação para defender que o crescimento voltou. Mas, se pegar a trajetória, mês passado, por exemplo, continua lá: consumo caindo, serviços caindo, comércio, indústria ruins”, ressaltou.
 
Na avaliação do professor, o máximo que o cenário permite avaliar é que há uma desaceleração do ritmo de queda da atividade econômica, o que, para ele, é natural em uma economia que está há dois anos em recessão. “Não tem muito mais para onde cair”, disse.

Austericídio

Em discurso para marcar um ano de governo, Temer ressaltou a ação de sua equipe no sentido de equilibrar as contas públicas. Citou como exemplo a regra que limita o crescimento dos gastos públicos.

Guilherme Mello lembrou que a gestão sempre partiu da ideia de que, cortando gastos e investimento público, seria possível resolver o problema fiscal. “Então fecha hospital, fecha faculdade, para de investir, não constrói rodovia, não constrói ferrovia, não faz nada. Só que, ao cortar gastos – especialmente em investimentos, que foram os que caíram muito –, o governo reforçou a recessão. Caiu a receita. Eles nunca iam conseguir entregar o que prometeram, que era melhorar as contas públicas, com esta estratégia.”

De acordo com ele, para resolver o problema fiscal, é preciso que o país volte a crescer. “O problema é que apostaram em estratégia de retomada do crescimento que fracassou. É a mesma estratégia do Levy, só que o Levy começou com o ajuste de curto prazo; Temer inverteu – ‘primeiro aprovo as reformas, depois vou fazendo os ajustes’, que é a ideia da PEC do teto”, afirmou.

Catástrofe para trabalhadores

O economista analisou que ambos os ministros fracassaram, porque partiram de um ponto de vista de como funciona a economia que é “equivocado”. “Eles acham que o problema é o custo do trabalho, que está muito caro e, portanto, tem que ser reduzido. E só assim o empresário iria lá e investiria. E como reduzir o custo do trabalho? Reduzindo direito trabalhista e salário. Como se reduz salário? Promovendo desemprego e recessão. Então eles fazem uma reforma trabalhista, que tira direitos, e promovem desemprego e recessão. E acham que assim o Brasil vai voltar a crescer. É óbvio que não funcionou.”

Temer e Meirelles têm celebrado a queda da inflação como uma conquista da gestão. O professor da Unicamp, contudo, destacou que o recuo já estava previsto e vem desde o governo Dilma, como consequência da própria recessão. “A queda da inflação é a consequência positiva de um fenômeno extremamente perverso, que é a recessão”, indicou.

Ele projetou que “é muito provável” que este ano o país tenha um crescimento muito próximo de zero, mas não descartou que haja um resultado negativo. “E é zero em cima de um PIB que já caiu mais de 7% (somando-se 2015 e 2016). Então a gente estagnou na série D. E, se tiver algum crescimento positivo, vai ser muito pequeno e puxado principalmente pela agropecuária, que é uma coisa que está muito fora do controle do governo”, opinou. Na sua análise, o bom desempenho da agropecuária tem pouco a ver com medidas de governo e deve-se, principalmente, a fatores como o clima e o mercado internacional.

“Então o balanço deste um ano de governo depende do lado que você está. Se você é um banqueiro ou investidor financeiro, talvez o governo não tenha sido tão ruim. Mas, se você é um trabalhador ou pobre, aí é uma catástrofe”, disparou.

Alternativas

Questionado a respeito das alternativas às medidas econômicas de Temer, Mello citou a necessidade de se realizar, sim, reformas, mas no sentido oposto às propostas pela atual gestão. “As reformas deveriam privilegiar a distribuição de renda. Ou seja, cortar privilégios dos que têm mais e garantir e aumentar investimentos e direitos para os que têm menos”, disse. Para ele, seria importante realizar uma reforma tributária que desonerasse a produção e o trabalhador e onerasse o estoque de riqueza dos mais ricos.

Além disso, ele defendeu que o governo deveria buscar formas de financiar o aumento do investimento em infraestrutura, que gera emprego e demanda; ampliar o crédito utilizando bancos públicos; e manter o câmbio um pouco mais desvalorizado.

“Acho que o Brasil está na contramão do desenvolvimento. Investe em uma estratégia que não só não promove desenvolvimento, como vai inviabilizar o desenvolvimento para o futuro”, lamentou.

Marcos Oliveira/Agência Senado
 

A Construção de uma NOVA CENTRAL SINDICAL DE TRABALHADORES – NCST foi forjada na unidade, coragem e ousadia, capaz de propor uma alternativa de luta para os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. A NOVA CENTRAL SINDICAL DE TRABALHADORES marca um momento importante na história do Movimento Sindical Brasileiro, ela é a esperança transformada em realidade que se constitui como instrumento de luta e de unidade da classe trabalhadora do nosso País.

NEWSLETTER
RECEBA NOTÍCIAS POR EMAIL

Receba diariamente todas as notícias publicadas em nosso portal. Após cadastro, confirme sua inscrição clicando no link que chegará em sua caixa de entrada. Confira essa novidade!

SAF-Sul Quadra 02 Bloco D Térreo - Sala 102 - Ed. Via Esplanada - CEP: 70070-600 - Brasília-DF | Telefone: (61) 3226-4000 / Fax: (61) 3226-4004

Back to Top