A política profissional é uma fábrica de traidores

Data de publicação: 19 Abr 2016

 "É um golpe paraguaio versão coxinha, e não se trata de defender o governo que é indefensável, e sim afirmar que é uma fraude jurídico-político-midiática, para fazer a Operação Café Filho (Temer na Presidência), Operação Abafa (Cunha no STF e o fim da Lava Jato) e a agenda regressiva (a começar pelo PL 4330 e o PLS 131", afirma Bruno Lima Rocha, professor de ciência política e de relações internacionais.

Segundo ele, "a democracia liberal é um pato manco de pernas curtas e tortas, e o Brasil vem entrando na escalada de golpes brancos e institucionais na tarde deste domingo, ao vivo e a cores, com sensação de espetáculo midiático.

Em 15 dias vai começar um rolo compressor contra nossos direitos constitucionais, direitos estes que a ex-esquerda negociou tudo o que deu, mas que agora vão ser atacados sem pudor pelos oligarcas de sempre, pela direita de sempre e por toda esta falsa maioria que garantiu a tal da governabilidade enquanto o jogo foi do Ganha-Ganha".

Eis o artigo.
 
Acabou o engodo, a maior farsa jurídica-política e midiática da história do Brasil. A Câmara Federal votou 367 (a favor) X 137 (contra) X 7 (abstenções) X 2 (ausências), totalizando 511 deputados votantes, sendo que maioria absoluta conseguiu aprovar a autorização para o Senado julgar a presidente Dilma Rousseff a partir do pedido de impeachment escrito e encaminhado pelos juristas Miguel Rale Jr., Hélio Bicudo e Janaína Paschoal.

Teríamos várias críticas e observações a fazer, mas de forma sucinta aponto ao comportamento da mídia e dos parlamentares neste dia para jamais esquecer e tampouco perdoar na história do Brasil.
 
Crítica da Mídia Golpista
 
O trabalho da mídia e o clima de já ganhou manifesto ao longo do dia de domingo 17 de abril, data em que se completam 20 anos do massacre de Eldorado dos Carajás. Seria um exagero observar cada manobra e manipulação da família Marinho e em específico da Globonews.
 
Mas, como o tema da política econômica impera no fundo das argumentações, listo três abaixo, a fundamentar a orientação dos golpistas. No dicionário político da Globonews e dos institutos neoliberais, temos o avesso da Economia Política Crítica.
 
 Vejamos:

Populismo Fiscal - quando o governo central mantém os gastos com o rentismo, torrando no mínimo 42% e chegando a 49% do orçamento federal com os juros da dívida e ainda assim tenta manter minimamente as políticas sociais e a política industrial;
 
Intervenção Política na Economia - quando o governo central toma um mínimo de vergonha na cara e orienta o Copom a baixar a taxa básica de juros e assim diminuir o peso do rentismo nas finanças da União, deixando de onerar mais de 25% do PIB brasileiro.
 
Austeridade e Fiel Cumprimento das Regras da Economia - quando o governo central cumpre apenas as funções básicas do Estado Capitalista alocando mais de dois terços dos recursos diretamente para financiar a acumulação privada, priorizando o capital financeiro e na seqüência subsidiando os cartéis nacionais.

Além destas observações acima, a crítica da mídia não deve parar por aí. Muito se especulou e muito foi plantado ao longo dos últimos meses, especialmente nos últimos dias. O reforço que quero deixar aqui é o da crítica da economia política, quando a empresa de comunicação travaste de “observação técnica” a políticas de Estado e a política econômica de corte neoliberal.

A fábrica de salsichas e a linha de montagem de traidores

A transmissão ao vivo da sessão solene do Impeachment na Câmara é a demonstração viva de um conceito-chave para a análise política de corte libertário (não confundir com o termo incorporado da direita liberal dos EUA).

A política profissional é uma fábrica de traidores, e a grande maioria da suposta base aliada veio sendo comprada - por dentro e com rubrica, através de acomodação de forças e alocação de recursos - pelo governo da ex-esquerda, incorrendo inclusive em ações que foram judicializadas, como a Ação Penal 470.

Vendo a base "aliada" que garantira a "tal da governabilidade" correr do apoio ao governo da ex-esquerda sem nenhum pudor é algo que alegra cientificamente - pela comprovação da tese - e nos deixa muito, muito irritados quando vemos o efeito societário.

A democracia liberal é um pato manco de pernas curtas e tortas, e o Brasil vem entrando na escalada de golpes brancos e institucionais na tarde deste domingo, ao vivo e a cores, com sensação de espetáculo midiático.

Em 15 dias vai começar um rolo compressor contra nossos direitos constitucionais, direitos estes que a ex-esquerda negociou tudo o que deu, mas que agora vão ser atacados sem pudor pelos oligarcas de sempre, pela direita de sempre e por toda esta falsa maioria que garantiu a tal da governabilidade enquanto o jogo foi do Ganha-Ganha.

Agora que veio o perde-ganha, a Fiesp vai passar a fatura para a massa na forma de bancar a aventura do golpe paraguaio versão coxinha. Eu insisto que o que está em jogo não é sequer um governo reformista e simplesmente uma troca de elite dirigente através de uma maquiagem legal para poder, aí sim, romper com o pacto de classes e retirar direitos coletivos através do pacote de 55 leis regressivas agora no Congresso e andando rápido.
 
Estou bem tranqüilo na consciência, mas como analista, não deixa de ser apavorante ver o nível de sinceridade política, quando abunda a traição e a máscara de legalidade no momento. No caso da defesa dos direitos coletivos, a única garantia de impor bandeiras e pautas coletivas, é unificar as lutas possíveis e cerrar fileiras contra a restauração neoliberal que vem por aí.
 
Já está vindo a onda regressiva e restauradora, é verdade, e assim o governo Dilma em seu segundo mandato perdera boa parte de sua abalada legitimidade; a diferença é que agora virá a um passo muito acelerado, marchando em nome do pato da Fiesp com passo de ganso e a versão pós-moderna de uma mescla de neoliberalismo com fascismo cibernético, como os de Olavo de Carvalho, Feliciano e Bolsonaro.
 
O PT e o PC do B são responsáveis, pela crítica à esquerda, por tudo o que está ocorrendo. Não há como governar pela e com a direita sem terminar chantageado pelas direitas econômicas, ideológicas e políticas. Governar junto da Arena, da UDR, da Força Sindical, da CNI, da CNA, da CNT, entregar as finanças nacionais para a Febraban e outras esferas de poder econômico e ideológico, isso sem falar nos permanentes agrados e relações de proximidade com os barões da mídia, a começar pela própria Globo e a família Marinho, não poderia dar em outra coisa.

Que esta farsa de golpe com nome de impeachment enterre de vez, ao menos no que resta de esquerda política e esquerda social neste país, a farsa da democracia liberal e indireta e faça compreender, de uma vez por todas, que na América Latina, a democracia de procedimentos é a trégua com as elites burguesas e pós-coloniais e não a Paz Social, como é o pensamento do pelego e o amansador do povo.
Que a farsa deste domingo sirva de lição histórica e retroalimente de força e vontade de lutar aos militantes ainda sinceros de toda a Esquerda, que entenda de uma vez por todas que fora do Poder do Povo na forma de Democracia Direta tudo é ilusão e assim sendo, que todos os projetos políticos e reivindicativos acumulem para esta meta de longo prazo.
 
Do contrário, o que hoje é o PT e o PC do B, amanhã será o PSOL e os demais partidos eleitorais, a próxima geração de 20 anos a ser auto-enganada pelas instituições do inimigo de classe a carregar de energia a roda do moinho dos outros.
 
Entendo a frustração dos milhares de militantes ainda sinceros que se dizem de esquerda embora estejam perfilados na ex-esquerda ou mesmo na centro-esquerda. O problema da frustração é apostar no caminho equivocado. Hoje a Furacão 2000 no Rio de Janeiro ameaçou com o Morro Descer; deveria ter ameaçado desde 1º de janeiro de 2003 e assim garantir o que restava de esquerda ainda neste governo de centro-direita.
 
Apontando conclusões e um tortuoso, mas verdadeiro caminho

Para concluir, o pacto de classes está rompido, e sei que nunca assinamos tal pacto. Há de se lembrar que todo pacto político é transitório, e assim sendo, o pacto sem espada afiada não passa de perigosa conversa fiada. Que tracemos alianças entre as bases à esquerda e deixe que a direita e seus aliados façam a parte deles.

Nos conchavos e alianças de ocasião o pelego e o traidor crescem, na luta popular, a esquerda combativa e classista cresce. Resta escolher o caminho de longo prazo e dizer não para as ilusões transitórias.

O médio prazo é bastante sinistro e sim, é um golpe paraguaio versão coxinha, e não, não se trata de defender o governo que é indefensável, e sim afirmar que é uma fraude jurídico-político-midiática, para fazer a Operação Café Filho (Temer na Presidência), Operação Abafa (Cunha no STF e o fim da Lava Jato) e a agenda regressiva (a começar pelo PL 4330 e o PLS 131.

Tempos sombrios por um lado e tempos de luta por outro. A única democracia que resiste aos conchavos das elites é a democracia direta e mecanismos plebiscitários e de referendos. Porque fora do Poder do Povo tudo é uma perigosa ilusão.

Bruno Lima Rocha, professor de ciência política e de relações internacionais.

A Construção de uma NOVA CENTRAL SINDICAL DE TRABALHADORES – NCST foi forjada na unidade, coragem e ousadia, capaz de propor uma alternativa de luta para os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. A NOVA CENTRAL SINDICAL DE TRABALHADORES marca um momento importante na história do Movimento Sindical Brasileiro, ela é a esperança transformada em realidade que se constitui como instrumento de luta e de unidade da classe trabalhadora do nosso País.

NEWSLETTER
RECEBA NOTÍCIAS POR EMAIL

Receba diariamente todas as notícias publicadas em nosso portal. Após cadastro, confirme sua inscrição clicando no link que chegará em sua caixa de entrada. Confira essa novidade!

SAF-Sul Quadra 02 Bloco D Térreo - Sala 102 - Ed. Via Esplanada - CEP: 70070-600 - Brasília-DF | Telefone: (61) 3226-4000 / Fax: (61) 3226-4004

Back to Top