​“É inaceitável fazer o ajuste fiscal punindo os mais pobres”

Data de publicação: 9 Fev 2015


Frei Betto amigo e ex-assessor especial de Lula e coordenador do programa Fome Zero; tem mais de 60 livros lançados no Brasil, entre eles “Batismo de Sangue”. Um dos fundadores, o dominicano afirma em entrevista a O TEMPO não “estar otimista quanto ao segundo mandato de Dilma Rousseff” e compara a escolha ministerial da presidente a um “coral desafinado”.

O senhor esteve em Cuba com o líder Fidel Castro. Como foi esse contato e qual o estado do ex-presidente cubano?

Todo ano viajo a Cuba, e, quase sempre, Fidel e Raúl Castro me convidam para conversar. Fidel não aparecia em público desde agosto passado. Nem mesmo havia sinais se estava bem ou mal de saúde. Muitos cubanos estranharam o silêncio dele quando do retorno, a Havana, dos três ex-agentes antiterroristas cubanos que desde 1998 estavam presos na Flórida.

Também não se manifestou quando Raúl e Obama anunciaram o início do diálogo para o reatamento de relações formais entre Cuba e EUA. Desembarquei em Havana a 21 de janeiro e, por meio de um assessor do Raúl, remeti uma carta a Fidel, agradecendo pela que ele me havia enviado em agosto, por ocasião de meus 70 anos.

Dois dias depois, Dalia, a esposa dele, indagou ao assessor qual era a minha programação em Havana. Já era um indício de que eu poderia ser recebido. E, efetivamente, na tarde de 27 de janeiro, me convidou a sua casa e conversamos durante uma hora e meia. Fidel, aos 88 anos, está completamente lúcido, inteirado das conjunturas cubana e mundial. Mantém o hábito de anotar tudo que o interlocutor diz.

 Falamos sobre o papa Francisco, que ele admira, e sobre a reaproximação Cuba-EUA. Também sobre cosmologia e astrofísica, pois Fidel havia lido meu livro “A Obra do Artista – Uma Visão Holística do Universo”, traduzido em Cuba e editado aqui pela José Olympio, e se mostrou muito interessado no tema, a ponto de me pedir para lhe enviar mais bibliografia a respeito.

Como o senhor vê esse movimento de aproximação entre os Estados Unidos e Cuba? E Fidel, durante o encontro, qual avaliação fez sobre essa relação com os EUA?

Fidel deixou claro que os EUA são, ainda, um país inimigo de Cuba. Mas encara com otimismo o início do diálogo, única maneira de se alcançar, hoje, a paz. Porém frisou que é um longo caminho. Não basta Obama admitir que fracassou o bloqueio imposto a Cuba durante 53 anos e querer reatar relações diplomáticas.

É preciso muito mais: suspender o bloqueio, devolver a base naval de Guantánamo, cancelar as leis Torricelli e Helms-Burton (que reforçam o bloqueio), permitir que empresas áreas voem entre os dois países, retirar Cuba da lista de “países terroristas” etc.

Qual avaliação o senhor faz dos primeiros quatro anos de governo Dilma e do resultado eleitoral? Acha que o clima no país é propício para um governo do PT melhor que nos últimos quatro anos?

Dilma foi reeleita graças à mobilização dos movimentos sociais, sobretudo aqui em Minas, onde impuseram à oposição três sucessivas derrotas: de Aécio no primeiro e segundo turnos, e a eleição de Pimentel no primeiro. O primeiro mandato de Dilma foi positivo quanto às políticas sociais, ao controle da inflação, ao aumento real do salário mínimo a cada ano, à ousadia de implantar o programa Mais Médicos.

Porém falhou no diálogo com os movimentos sociais, com os povos indígenas e quilombolas, como também no investimento em direitos sociais, como educação, saúde, mobilidade urbana e segurança. E ela fez muito menos pela reforma agrária do que Lula. Agora prevejo quatro anos de turbulência, sobretudo com o Congresso dominado por caciques do PMDB pouco interessados em respaldar o PT. Basta ver a instalação de mais uma CPI para apurar a corrupção na Petrobras.

 Dilma comete o mesmo equívoco de Lula ao insistir em assegurar sua governabilidade pelo Congresso, onde campeia o mais deslavado fisiologismo marcado por profunda corrupção. O caminho a ser abraçado deveria ter sido o de Evo Morales, na Bolívia. Sem apoio no Congresso, ele se respaldou nos movimentos sociais, que, por sua vez, ocuparam posteriormente as cadeiras do Congresso. Hoje, ele governa com mais de 60% de aprovação.

O Partido dos Trabalhadores completa, em 2015, 35 anos. O senhor viveu de perto a fundação do partido. Qual sua avaliação sobre o caminho percorrido pelo PT de lá para cá?

O PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder, como analiso em meus dois livros, resultados dos anos 2003 e 2004, nos quais trabalhei como assessor especial do presidente Lula: “A Mosca Azul” e “Calendário do Poder”, ambos editados pela Rocco.

O PT, infelizmente, perdeu seus três capitais que o caracterizavam como singular na história política do Brasil: a ética, ser a expressão e meio de organização dos segmentos pobres da população, e a utopia socialista. Nesses 12 anos de governo do Brasil – que, apesar de tudo, foram os melhores de nossa história republicana – o PT despolitizou a nação, favoreceu demasiadamente a elite, ignorou demandas urgentes e históricas como a reforma agrária e a reforma política.

No entanto, implantou políticas sociais que reduziram significativamente o número de miseráveis; criou o sistema de cotas; ampliou o acesso dos mais pobres à educação e, em especial, à universidade; livrou-nos da dependência do FMI; adotou uma política externa independente e progressista.

Gostaria que o senhor fizesse uma avaliação desse início do segundo governo da presidente Dilma, principalmente no que diz respeito à escolha dos ministros e às medidas impopulares anunciadas, como mudanças em benefícios trabalhistas e aumento de impostos.

O ministério é um coral desafinado. Como acelerar o carro e, ao mesmo tempo, puxar o freio de mão? É o que ocorre em um governo que supõe haver um mínimo de identidade entre Kátia Abreu e Patrus Ananias, Joaquim Levy e Miguel Rossetto. Alguém aí haverá de trair seus princípios ou cair fora do governo. É inaceitável fazer ajuste fiscal penalizando os mais pobres e preservando os mais ricos.

Dilma vai na direção oposta à de Obama, que adotou mais carga tributária para quem ganha mais. A lentidão dela em decidir sobre as mudanças na Petrobras também prejudicou o apoio ao governo. E tudo indica que a inflação chegará logo aos 7%. De modo que não sou otimista quanto ao segundo mandato de Dilma e prevejo muitas manifestações populares.

No caso do anúncio de mudanças nas questões trabalhistas, a presidente já enfrentou protestos da CUT e de movimentos sindicais. Antes, o MST já havia protestado contra a escolha de Kátia Abreu como ministra. Como o senhor encara essas críticas feitas por essas entidades? O que, na sua opinião, está errado?

No dia 26 de novembro, Dilma recebeu no Planalto, por uma hora e 20 minutos, uma representação do Grupo Emaús, da Teologia da Libertação, na qual estavam Leonardo Boff e eu. Levamos a ela um documento de críticas e sugestões, que o leitor pode acessar em meu site: www.freibetto.org. Saímos dali otimistas. No entanto, as medidas agora anunciadas – tirar dos pobres para dar aos ricos – me deixam desolados.

Por que, em vez de mexer no abono salarial, no seguro desemprego etc., ela não taxou as grandes fortunas, as heranças, nem aumentou os impostos de carros, cigarros, bebidas alcoólicas ou mesmo propôs uma reforma tributária progressiva?

Desde o resultado eleitoral no ano passado, a oposição questiona a vitória do PT e fala muito em impeachment da presidente Dilma Rousseff. O senhor acredita que há um movimento orquestrado pró-impeachment da presidente? Qual o risco, na sua visão, de haver terreno propício para que isso realmente ocorra?

Sem dúvida, há setores da oposição, das Forças Armadas e da elite interessados no impeachment da presidente Dilma, como forma de afastar o PT do poder. Isso é mero golpismo. Não contará jamais com a base mínima para ter sucesso, como aconteceu com o golpe militar de 1964 e o impechment de Collor: apoio e mobilização populares.

http://www.otempo.com.br/capa/pol%C3%ADtica/%C3%A9-inaceit%C3%A1vel-fazer-o-ajuste-fiscal-punindo-os-mais-pobres-1.990719


A Construção de uma NOVA CENTRAL SINDICAL DE TRABALHADORES – NCST foi forjada na unidade, coragem e ousadia, capaz de propor uma alternativa de luta para os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. A NOVA CENTRAL SINDICAL DE TRABALHADORES marca um momento importante na história do Movimento Sindical Brasileiro, ela é a esperança transformada em realidade que se constitui como instrumento de luta e de unidade da classe trabalhadora do nosso País.

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