A entrada no mercado de caminhões computadorizados e controlados tanto pelo motorista na boléia quanto pelo escritório da empresa, além da produção de gigantescos bitrens e rodotrens capazes de movimentar até 60 toneladas, está produzindo demissões dos motoristas mais antigos. As empresas estão dando preferência ao profissional de nível médio com vivência em informática. Essa nova situação no mercado está trazendo complicações com o Código Civil e a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT).
Para estudar a situação a FITTRN (Federação Interestadual do Trabalhadores em Transportes da Região Nordeste), reuniu em Recife diretores dos 36 Sindicatos filiados chamando para o encontro juizes de Direito, promotores, empresários e advogados. “Trata-se de uma situação a que não estamos acostumados”, comentou o presidente da CNTTT (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes), Omar José Gomes. O encontro examinou os diversos aspectos do problema, para oferecer soluções a serem levadas ao Ministério do Trabalho.
Produzidos pela Volkswagen, GM, Mercedes Benz, Scania e outras montadoras, os veículos são requintados e dotados de computador de bordo e uma tecnologia avançada como câmbio automático, frenagem e estabilidade eletrônicas, câmaras de vídeo que vigiam o motorista dia e noite, radares que eliminam ângulos cegos e obrigam o motorista a manter distância adequada de outro veículo. Em casos especiais, o computador pode até acionar os freios de emergência em casos de colisão eminente, independente da vontade do motorista. Foram analisados ao impactos desses computadores de bordo na vida social e afetiva do trabalhador
“Está tudo mudado. Dada a especialização no setor, os novos motoristas de caminhão estão sendo chamados de “mecatrônicos”, disse o presidente da FITTRN, Braulino Sena Leite. Para ele, a tecnologia trouxe ganhos para o transportador e para os motoristas, mas cria problemas para os profissionais mais antigos.

Sena Leite que é também vice presidente da CNTTT, levou para o encontro, todos os diretores de sindicatos de trabalhadores em transportes rodoviários da base territorial da FITTRN do Rio Grande do Norte até a Bahia. Presentes ainda acadêmicos de Direito e sindicalistas de outros setores em várias partes do país. Ele entende que hoje em dia não existe mais aquele motorista sujo de graxa, pronto para entrar debaixo de um caminhão para apertar um parafuso, trocar um pneu. “É preciso estudar a complexidade dos novos caminhões e encarar o assunto de frente”, concluiu.
RODOVIÁRIOS VÃO PEDIR AJUDA AO
GOVERNO E PRODUTORAS DE VEÌCULOS
No encerramento do I Encontro Jurídico dos Sindicatos dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários da Região Nordeste, o presidente da CNTTT (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Terrestres), Omar José Gomes, assinalou que ninguém pode conter o avanço tecnológico. “Esse nosso encontro deixou claro que os motoristas mais antigos têm que ser treinados para trabalhar com os ônibus e caminhões que estão sendo produzidos no Brasil, todos computadorizados e com nova tecnologia embarcada”, disse.

Mas, afirmou que nem tudo está perdido. A CNTTT vai acionar o governo federal em busca de ajuda para enfrentar o problema. Vai depois ao SEST/SENAT que tem programa de treinamento para motoristas nas suas unidades em todo o país e, finalmente, vai às montadoras reivindicar um simulador composto de todos os avanços tecnológicos, a exemplo do simulador de vôo existente nas empresas aéreas. E advertiu: “a empresa que não quiser ajudar sofrerá boicote, ou seja, tem caminhão mas os motoristas não vão se interessar em dirigí-lo”.
Como velho motorista de caminhão, Omar Gomes admitiu que o Brasil sofre problemas de qualificação. Ele conhece apenas o Instituto São Cristóvão, no Paraná e Minas Gerais e o Instituto Resgate, em São Paulo, que têm cursos de reciclagem de motoristas. Eles poderão também ajudar em convênio com o governo federal, com o SEST/SENAT ou com a CNTTT no treinamento de motoristas de ônibus, caminhões, carretas, bitrens e treminhões, alguns com capacidade para puxar até 60 toneladas.
JUIZ DEFENDE A LEGISLAÇÃO TRABALHISTA:
É ANTIGA MAS VEM SENDO ATUALIZADA
No I Congresso Jurídico dos Sindicatos dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários da Região Nordeste, o juiz Agenor Calazans da Silva Filho, da 25a Vara do Trabalho de Salvador, garantiu que os avanços da tecnologia são acompanhados de perto pela legislação trabalhista. Concordou que a legislação é antiga, mas disse que ela tem sido atualizada ao longo dos anos. “Desde a Revolução Industrial que demitiu muitos empregados, as novas tecnologias provocam dispensa de trabalhadores, mas eles têm que ser treinados para voltar e encarar a realidade. Conflitos trabalhistas existem no mundo inteiro, mas eles têm que ser administrados com serenidade”, concluiu.
O presidente da FITTRN (Federação Interestadual dos Trabalhadores em Transportes da Região Nordeste), Braulino Sena Leite, informou que esta crise vem provocando três grandes desafios no movimento sindical brasileiro. No primeiro deles, o momento político em que acontece a crise; em segundo lugar, a falta de especialização dos motoristas para trabalhar com esses equipamentos e em terceiro, os processos de incorporação e organização dos jovens ao movimento sindical.
Explicou que no começo da atual legislatura, os empresários tinham 219 deputados na Câmara Federal e 27 no Senado. Essa bancada teve aumento mas a bancada de trabalhadores diminuiu. Para enfrentar à altura esta demanda, o movimento sindical precisa aumentar sua representação no Congresso Nacional. “Temos que nos unir para eleger no próximo ano, o máximo de representantes nos estados e fazer avançar nossa agenda de reivindicações”, disse Sena Leite, apontando para a necessidade de profissionalismo, organização, recursos financeiros e, sobretudo, unidade do movimento sindical.
Para ele, o primeiro desafio é a regulamentação da profissão de motorista, que já tem 21 anos que tramita no Congresso, além da redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas por semana sem diminuição do salário. “A gente não pode é continuar votando nos mesmos deputados, no mesmo senador, sem fiscalizar o trabalho deles, assiduidade, suas propostas e assistência aos dirigentes sindicais que os procuram. Muitos deles mandam dizer que não estão”, concluiu.
Em outra linha de raciocínio, Braulino Sena Leite propôs aos sindicalistas estimular a chegada às diretorias dos sindicatos de possíveis substitutos seus, novas lideranças também de mulheres que hoje em dia, são maioria na sociedade. Lembrou que no mercado de trabalho, elas têm grande representação, inclusive em setores da economia que antes eram redutos masculinos, a exemplo da construção civil. Estabelecer pautas para melhores condições de trabalho, salário igual ao dos homens para tarefas iguais, creche para os filhos e, finalmente, brigar pela inclusão de mulheres na luta sindical.
HOMENAGEM
No Congresso de Recife, foram homenageados com placa de Honra ao Mérito, os sindicalistas Omar Gomes, presidente da CNTTT; Patrício Magalhães, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Urbanos e Intermunicipais de Recife e Região e João Sampaio, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes de Carga de Alagoas. Junto com o presidente Braulino Sena Leite, eles criaram a FITTRN (Federação Interestadual dos Trabalhadores em Transportes da Região Nordeste).
PROTEÇÃO I
O juiz Agenor Calazans da Silva Filho, da 25a Vara do Trabalho do TRT de Salvador, fez várias incursões no decorrer dos trabalhos. Numa delas, ele procurou desmistificar a teoria de que a Justiça protege o trabalhador. Explicou que a lei que é protetora. O Juiz só aplica a lei. Para desarmar os espíritos, ele assinalou que já ouviu falar que na mesa de negociação na Justiça do Trabalho, tem empregado que procura sentar do lado esquerdo, o lado do coração do juiz.
PROTEÇÃO II
Advertiu aos dirigentes sindicais de que vivemos outros tempos. O emprego, hoje em dia, não é tão seguro assim. Tanto que bancos e financeiras estão insistindo em emprestar dinheiro a aposentados, que têm estabilidade e dinheiro na conta todo mês, chova ou faça sol.
ÉTICA I
Na palestra sobre “As tecnologias no setor de transporte e os reflexos na ética”, a procuradora do Ministério Público da Bahia, Cleonice de Souza Ramos, advertiu que o poder não admite reversão. Ou o trabalhador se adapta ou é substituído. Afirmou que esta concepção chegou ao Brasil nos anos 60 com a Xuxa, Angélica, Eliana e outras, que na televisão influenciam até hoje nossos filhos. Foi nesta época que a mulher tomou conta do seu ventre. Ela pari quando quiser. O empregado tem que ser maleável, aberto a novas tecnologias. Hoje temos a televisão, rádio, computador, tv a cabo, celular, Internet, skayp, pen drive e outros equipamentos que facilitam a nossa vida mas complica a vida de quem os ignora.
ÉTICA II
Para a procuradora Cleonice dos Santos Ramos o motorista tem que se manter antenado, pois, a tecnologia tem um poder extraordinário e podemos traze-la em nosso favor. O motorista com um computador de bordo pode, antes de começar a jornada, falar pessoalmente com a mulher e com os filhos, saber as novidades lendo o jornal na Internet, onde está chovendo, se tem engarrafamento, onde, os desvios etc. Tem que se manter vivo. “Caso não queira voltar ao caminhão, faça transporte complementar, transporte escolar, mas não abandone a tecnologia. |